Espero a resposta na hora do café! Ou A batalha de João Dória, o pêra, Rei dos paulistanos!

Acompanho com curiosidade o embate entre o prefeito de São Paulo, João Dória, com os pichadores, grafiteiros e demais artistas de rua. João começou o mandato de forma histriônica. Vestido como gari, brocha na mão, cobriu com tinta cinza os muros da cidade. Logo veio o carnaval, e o carnaval não perdoa: A cruzada do prefeito contra os pichadores inspirou algumas marchinhas, como “Eu pinto em cima” e a excelente “De brocha na TV”.
As marchinhas são nossa forma mais autêntica de fazer bullying com os políticos. A prática não é de hoje como mostra o livro do pesquisador Miguel Ângelo Azevedo, A história cantada no Brasil em 78 rotações.
Logo no Início da República uma marchinha fazia troça com nosso primeiro presidente, o Marechal Deodoro da Fonseca:

“Fui ao Campo de Santana,
Beber água na cascata,
Encontrei o Deodoro,
Dando beijo na mulata”

No carnaval de 1909 uma outra marchinha brincava com o grupo de bajuladores que rodeava o senador Pinheiro Machado. Sua casa no alto do Cosme Velho era local de reunião de políticos conservadores. Como Machado era do Rio Grande do Sul, não abria mão de tomar o chimarrão. Conta a lenda que um dos seus bajuladores, na pressa em repor a água quente de sua cuia, teria pego a chaleira pelo bico, queimando a mão e virando piada no carnaval:

“Iaia me deixa subir essa ladeira,
Que eu sou do grupo que pega na chaleira…”

Mais pra frente, em 1921, Freire Júnior e Luiz Nunes Sampaio compuseram a marcha “Ai, seu Mé”, que era um dos apelidos de Artur Bernardes (o outro era Rolinha). Nela brincavam com a preferência popular por Nilo Peçanha, que era de Campos dos Goitacazes e tinha acabado de perder a disputa à presidência para Bernardes.

“Zé-povo quer a goiabada campista
Rolinha, desista, abaixe essa crista
Embora se faça uma bernarda a cacete
Não vais ao Catete!
Não vais ao Catete!”

Por mais inocente que fosse, a marchinha resultou em um pedido de prisão dos compositores. Freire Júnior foi para a cadeia e Luiz Nunes Sampaio conseguiu fugir. Nem todo político lida bem com o bullying, como exemplifica o caso de Luís-Filipe de Orleans, o pêra, Rei dos franceses.
A conversão de Luís Filipe em uma pêra (também conhecida como a “perificação do Rei”) começou em 14 de novembro de 1831. O ilustrador Charles Philipon enfrentava julgamento em Paris por “ultrajes cometidos contra o Rei” através de desenhos publicados em seu jornal satírico La Caricature, que mostravam o monarca como um pedreiro, cobrindo com argamassa os slogans da revolução que um ano antes havia destituído o Rei Carlos X e elevado Luís-Filipe ao poder. A mesma revolução que serve de pano de fundo para Os Miseráveis, do Victor Hugo.
A defesa de Philipon foi engenhosa. Ele argumentou que, apesar da caricatura em questão parecer o Rei, não havia como se provar que era de fato o Rei. O crime de lesa-majestade não é provado até que seja demonstrado, acima de qualquer dúvida razoável, que a pessoa que está sendo ridicularizada é de fato o Rei. A posição de Phillipon era de que as aparências não fornecem a certeza absoluta de que o Rei era de fato o personagem da sua ilustração. Afinal, os sinais da monarquia, insígnias, brasões, cetros, que definem o Rei de forma inequívoca, estavam ausentes de seu desenho. A mera semelhança física não seria suficiente para ligar a imagem à pessoa.
Para trazer a discussão para um terreno que ele conhecia bem, o ilustrador fez na frente da corte quatro esboços que passavam progressivamente de um retrato de Luís-Filipe para um desenho de uma pêra. Os quatro esboços funcionaram muito bem: o primeiro parecia Luís-Filipe, o segundo parecia com o primeiro, o terceiro com o segundo, o quarto com o terceiro. No entanto, o quarto não se parecia nada com o primeiro. O quarto desenho, definitivamente, não era o Rei, era uma pêra! A menos que o tribunal reconhecesse que a identidade real é estabelecida apenas pelos sinais inequívocos associados à monarquia, teria que processar todos que desenham frutas inofensivas: a identidade não pode ser dada apenas por semelhança física, ela vai além disso e exige símbolos específicos, e nenhum sistema jurídico que se preze poderia ignorar essa distinção.
Dez dias após seu julgamento, em 24 de novembro de 1831, já absolvido, Philipon publicou seus desenhos feitos no tribunal em seu jornal, e a associação do Rei com a pêra foi instantânea. Curiosamente, ao desenhar a transformação do Rei em uma pêra, o argumento de Philipon não era que Luís-Filipe parecia uma pêra, mas precisamente o contrário, que ele não se parecia com uma! O que ele queria dizer era que a semelhança estava inteiramente no olho do observador, que as aparências físicas são tão indignas de confiança que quaisquer objetos podem ser desenhados de forma a se parecerem, mesmo um rei e um pedaço de fruta.
Mas já era tarde! Em toda a França, desenhar uma pêra, segurar uma pêra, até mesmo dizer “pêra” tornou-se um ato de piada com o Rei. Para o resto do reinado de Luís-Filipe, a pessoa do rei e a forma da pêra eram um ser único e indivisível. A pêra de Philipon apoderou-se da França com uma velocidade vertiginosa. De acordo com o livro Histoire de la caricature moderne, quatro meses após a perificação de Luís-Filipe, essa já era a “piada nacional da França”. Em novembro, Sebastien Peytel, assinando como “Louis Benoit, jardineiro”, publicou um livro chamado Physiologie de la poire, que se esgotou em dias. O livro, para quem o lê hoje, parece ser totalmente surreal. Uma mistura de manual de agricultura, com imagens aleatórias envolvendo pêras e um texto que embora se pretenda sério, a todo momento faz piadas com o Rei. Mas para o francês da época, que sabia muito bem que “a pêra era o Rei” e “o Rei era a pêra”, o livro faz todo sentido. Peytel termina dessa forma o livro: “Fechamos agora essa dissertação sobre a pêra, que talvez tenha sido longa demais, e a coroamos com as abençoadas palavras CES’T FINI”. A dissertação sobre a pêra e o reinado de Luís-Filipe eram a mesma coisa. Peytel sugeria que o reinado já era longo demais, e que deveria finalmente chegar ao fim. Alguns anos mais tarde Peytel seria condenado à morte pelo assassinato de sua própria esposa. A pena foi considerada pesada demais pela sociedade francesa (vale lembrar que as mulheres não tinham tantos direitos assim na França do século XIX) e houve inúmeras tentativas de conseguir junto ao Rei uma comutação para penas mais brandas. A irredutibilidade do monarca é ainda hoje creditada ao fato de Peytel ter publicado seu livro, e a pena foi cumprida à risca. Como anda não havia o Estado Islâmico, os humoristas franceses do século XIX eram mortos pelo próprio Rei.

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Os quatro esboços responsáveis pela “perificação do Rei Luís-Filipe”, feitos durante o julgamento do ilustrador Charles Philipon e publicados em seu jornal La Caricature.

A essa altura as pêras estavam em todo lugar. Toda a França, mas especialmente as grandes cidades eram cravejadas de desenhos de pêras, cartazes de pêras, pinturas de pêras, nos muros, postes, casas. Stendhal vivia exatamente nessa época, e deixou um relato interessante do estado das coisas em seu livro Lucien Leuwen: um oficial, a mando do Rei se desloca até Nancy, e aonde quer que vá as pessoas, “até mesmo crianças” fazem graça com ele com “uma pêra ou outro símbolo sedicioso”. O inusitado da situação levou o Rei a uma atitude dura: adotou novas leis proibindo que se imprimisse qualquer desenho, texto ou referência a pêras. Mandou que se arrancassem os cartazes, e que se pintassem os muros que tivessem pêras desenhadas.
O periódico Parisiense Le Charivari enfrentou, em virtude das novas leis, uma situação bizarra: ao solicitar aos censores que aprovassem o desenho de uma senhora com alguns animais, onde se incluía um coelho, os censores viram uma semelhança perigosa entre este e uma pêra. De acordo com eles, o coelho era como uma pêra na qual alguém tivesse colocado orelhas. A equipe do Le Charivari redesenhou a charge, retirando o coelho subversivo e re-submetendo o desenho ao crivo dos censores. Após considerar de forma pormenorizada a questão, a equipe de juízes decidiu por vetar o desenho mais uma vez, alegando que apesar do coelho ter sido retirado, havia no canto uma jarra que se parecia bastante com o coelho, que por sua vez se parecia com uma pêra onde alguém houvesse posto orelhas. Esse era o nível da situação na França nos anos 1830.
Mas não é qualquer pêra que serviria para realizar a perificação de Luís-Filipe. O gênero Pyrus se originou no chamado período terciário, entre 55 e 65 milhões de anos atrás nas regiões montanhosas da China. Partindo daí teria lentamente se disseminado até terras mais baixas, embora sempre com a condição de possuírem climas amenos. Existem vestígios arqueológicos de folhas do gênero Pyrus em algumas localidades da Europa Oriental e do Cáucaso, todos muito antigos, de milhões de anos. Uma planta tão antiga e com tanto apelo para a alimentação não passou despercebida. A primeira menção a pêras na Europa foi feita por Homero. Na Odisséia fica claro que as pêras já eram cultivadas na Grécia há pelo menos 3000 anos atrás. Homero se refere a ela como um “dom de Deus”. Teofrasto (371- 287 aC), também grego, fez importantes observações sobre a pêra, distinguindo as formas silvestres das cultivadas e sugeriu que genótipos domesticados recebessem um nome especial. Ele é o primeiro que relatou uma característica importante das pêras, que as aproximam muito da maçã. Ambas “perdem o caráter de sua espécie e produzem tipos degenerados” quando são propagadas a partir das sementes. Assim como a maçã (sobre as quais eu já falei nesse blog no texto “Todas as nações são bem vindas, exceto…”), pêras apresentam enorme variabilidade genética entre uma geração e outra. Sementes de pêras suculentas e doces não possuem qualquer garantia que darão origem a pêras igualmente gostosas. Por isso pêras são frequentemente cultivadas através de enxertia.
De acordo com o Dictionary of Cultivated Plants and Their Centres of Diversity, há dois centros de domesticação do género Pyrus. Na china, onde nasceu a pêra asiática (Pyrus pyrifolia), crocantes, com uma textura que lembra a da maçã, e no Oriente Médio e nas montanhas do Cáucaso, onde hoje são a Geórgia e o Azerbaijão, berço da pêra Européia (Pyrus communis), com a polpa mais macia e suculenta.
Outra importante diferença entre as duas espécies domesticadas está na forma do fruto. A espécie européia possui a forma típica de pêra, com a base larga e o topo curto. Foi a forma usada pelo cartunista francês para fazer a perificação do monarca. Já pêras asiáticas são redondas, muito parecidas com maçãs.
Quando eu Morava na Bélgica e trabalhava no VIB (Instituto de Biotecnologia de Flandres) tinha um colega chamado Wannes que era um excelente hortelão. Ele cultivava todo tipo de planta comestível (curiosamente as flores não tinham lugar em seu jardim, ele só se interessava por plantas alimentícias), mas tinha claramente um amor especial pelas pêras. De fato a Bélgica é um grande centro de produção e melhoramento de pêras. Ali, durante o século XVII se desenvolveram diversos cultivares que ficaram famosos e são patrimônio nacional (sempre lembrados pelo Waanes): a pêra Manteiga do Bosque, a pêra Manteiga de Anjo e o maior dos orgulhos belgas, a pêra Beleza Flamenga.
Wannes possuía uma verdadeira relíquia em seu quintal: uma única árvore que produzia os dois tipos domesticados de pêra. Tinha sido seu primeiro experimento em enxertia e dava pra ver que ele de fato levava jeito para a coisa. Cuidadosamente, seguindo instruções da internet, ele tinha conseguido agregar ramos de uma árvore de pêra asiática e de uma árvore de pêra européia usando uma muda de limoeiro como porta-enxerto. Anualmente ele tinha o privilégio de ter, ao alcance das mãos, os dois tipos de pêra domesticados vindos de uma mesma árvore! Certo dia, durante a sagrada pausa para o café que havia no VIB, ele trouxe uma pêra de cada tipo. Tivemos uma longa discussão sobre elas, buscando os motivos da diferença nos formatos entre as duas espécies. Certamente havia uma base genética por trás daquilo, mas qual? E mais: o que teria motivado a seleção, durante o processo de domesticação, de pêras com formato diferente? Wannes comentou ainda que ele possuía em seu quintal um tomateiro que dava tomates com formato de pêra. Será que havia uma base genética comum entre pêras e aqueles tomates que justificasse suas formas características? A conversa terminou de forma abrupta. Sem termos alcançado nenhuma certeza científica, sem novos argumentos e pressionados pelo acúmulo de trabalho, voltamos cada um para seu laboratório.
Na manhã seguinte encontro em frente ao meu computador um tomate com formato de pêra e uma cópia do artigo The Genetic, Developmental, and Molecular Bases of Fruit Size and Shape Variation in Tomato. No rodapé do artigo, um recado do Wannes: “I found this paper. Maybe it can solve the mistery, but I dont have time to read it now! I expect the answer by coffee time! Enjoy!” (Eu encontrei esse artigo. Talvez ele possa solucionar a questão, mas eu não tenho tempo para lê-lo hoje! Eu espero uma resposta na hora do café! Divirta-se!)
O artigo falava de um gene, chamado OVATE, que foi identificado em tomates. Mais especificamente na variedade de tomate que o Wannes tinha colocado na minha mesa, e que ele também crescia na sua horta. Nessa variedade de tomate o gene OVATE apresenta uma mutação que faz com que seja expressa uma versão truncada, não funcional desse gene. Essa única alteração no DNA era capaz de mudar de forma dramática a aparência do tomate, deixando pra trás o formato arredondado e passando a se parecer muito com uma pêra.
O desafio proposto pelo Wannes me consumiu a manhã inteira de trabalho. Se quisesse ter a resposta do por que pêras asiáticas e europeias possuem formato diferente até a hora do café, lá pelas três da tarde, eu tinha que me dedicar. Pesquisando artigos onde a genética das duas espécies eram comparadas, e o genoma recém publicado de pêras europeias (The Draft Genome Sequence of European Pear) descobri que as diferenças genéticas entre as duas espécies domesticadas de pêra são muito grandes. E uma dessas diferenças era exatamente a presença do gene OVATE mutado em pêras européias.

Um tomate com formato de pêra, e ao lado pêras européias e asiáticas. Uma mutação no gene OVATE fez com que surgisse o formato de pêra que conhecemos hoje. Essa mutação está presente nas pêras européias e no tomate com forma de pêra, mas não em pêras asiáticas.

Em algum momento do processo de domesticação da pêra, populações européias se depararam com frutas alteradas, resultado de uma mutação aleatória no gene OVATE. As frutas não eram mais redondas. Tinham adquirido o formato tão marcante de pêras que conhecemos até hoje. É claro que muitas outras características estavam surgindo nas pêras durante sua domesticação. O formato é apenas uma delas, junto com uma polpa mais macia, mais suculenta e outros aspectos que diferenciam pêras européias e asiáticas. Mas a seleção de frutas com formato diferente é fascinante para mim.
Passei muito tempo pensando nisso. É difícil imaginar o impacto de uma alteração na forma para a planta. O surgimento do “pescoço” na fruta pode ter feito com que pêras tivessem menos probabilidade de cair prematuramente dos galhos. Ou talvez morcegos e outros pássaros dispersores tenham pela primeira vez conseguido, devido à parte mais fina da fruta, carrega-las por mais tempo, garantindo uma distribuição das sementes por uma área maior. Mas é mais provável que a seleção tenha mesmo sido obra de humanos. Porque os agricultores primitivos que se depararam com essa diferença decidiram selecioná-la? Só podemos especular, mas é possível que uma alteração que desse as pêras um formato tão característico, distinto de qualquer outra fruta, possa ter sido interpretada como uma vantagem para esses agricultores primitivos. Pensando bem, pode ser de grande utilidade ser capaz de diferenciar tipos de frutas à distância. Ou talvez tenha sido uma escolha baseada simplesmente na beleza da fruta. Seu formato inusitado pode ter interessado as populações que entraram em contato com as primeiras pêras mutadas. Independente dos motivos que levaram à seleção de pêras européias, a mutação no gene OVATE permitiu, milhares de anos depois de ter acontecido, que o cartunista Charles Philipon escapasse da cadeia, e deu início à um dos mais famosos casos de bullying político da história.
Luís-Filipe decidiu eliminar da vida francesa, nos anos 1830, qualquer referência à pêra. Sentia-se injustamente vítima de bullying e impôs uma censura muito rígida. Já nessa época era comum que a população se manifestasse através dos muros, e os muros da França, que a mando do Rei foram repintados, eram lotados de pêras para todo lado. Luís-Filipe o fazia para escapar da troça pública, imaginando que apagando os desenhos apagava também o que passava na cabeça das pessoas. É compreensível! João Dória, quase dois séculos depois, trava sua própria cruzada contra o grafite. O que ele deseja não é escapar de um julgamento maldoso, ou evitar piadas caricaturais; o que o motiva é um conceito estético do que deve ser a cidade: um lugar limpo, acético, estéril. O prefeito apaga os grafites de São Paulo por razões opostas às do Rei Luis-Filipe. O Rei mandou apagar as pichações porque se importava com o que elas retratavam, via nelas algum valor e as reconhecia como manifestação da opinião popular. Dória, por sua vez, o faz porque não dá a elas nenhum valor, classificando-as sob o selo genérico de “vandalismo”. Enquanto Luis-Filipe não aceitava o que os muros lhe diziam, João Dória sequer reconhece que eles dizem alguma coisa. Sem querer dar à questão mais atenção do que ela merece, vou sentir falta, quando visitar novamente São Paulo, das paredes pichadas que tão bem combinavam com a turbulência, com o movimento e o caos de uma metrópole tão sedutora e dinâmica. Por fim, só me resta desejar boa sorte a João Dória, o pêra, Rei dos paulistanos!

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Peste, plantas e geopolítica

Daniel Defoe, escritor e jornalista, viveu entre 1660 e 1731. Nesse período escreveu uma obra tão curta quanto genial: Moll Flanders, Robinson Crusoe e Um Diário do Ano da Peste. Eu li Um Diário do Ano da Peste com grande entusiasmo, acreditando que o livro era de fato o que o nome sugere: uma reportagem sobre a Grande Peste que assolou Londres entre 1665 e 1666, matando um quinto da população da cidade. Fiquei abismado, e me senti um pouco enganado, quando percebi que Defoe tinha entre quatro e cinco anos de idade quando ocorreu a peste londrina, de forma que o relato continha, certamente, uma boa dose de ficção.

De qualquer forma o livro é fantástico. Defoe vai de rua em rua, conversa com as famílias das vítimas, acompanha o recolhimento de corpos e pincela o livro com estatísticas da tragédia: número de mortos, número de infectados, quantidade de casas em quarentena e outros dados alarmantes, compondo um mosaico de fatos onde duas coisas são onipresentes: a peste e o medo de contraí-la. O livro é um documento humano de porte incontornável, um monumento dedicado àqueles seres que absolutamente não sabiam como livrar-se da angústia da morte iminente. Defoe narra os acontecimentos e dá voz a personagens que formam um painel do que é o homem, individual ou coletivamente, diante do terror.

Era comum que médicos, enfermeiros e sacerdotes (que estavam na linha de frente do combate à doença), simplesmente abandonassem seus cargos, desaparecendo até que o auge da epidemia passasse. As classes mais pobres foram deixadas para trás, tendo que lidar com a doença e com os cadáveres da maneira que pudessem. Sem médicos, com a morte à espreita e sem sequer saber o que as estava matando (o agente etiológico causador da peste só seria descoberto em 1894, mais de dois séculos depois), as pessoas foram forçadas a encontrar remédios viáveis para afastar a praga. No livro, Daniel Defoe relata diversas superstições, remédios caseiros e mandingas que os londrinos acreditavam ser capazes de mantê-los a salvo da doença. Me lembro da história de um coveiro que conseguiu sobreviver à peste fumando tabaco (Nicotiana tabacum) o tempo todo, e da moda de se usar saquinhos com ervas aromáticas amarrados ao pescoço, especialmente noz-moscada (Myristica fragrans).

Quase dois séculos antes da grande peste londrina, em 1492, Colombo chegava  à América, inserindo definitivamente a Espanha na era das expansões marítimas, e iniciando a disputa com Portugal pela primazia sobre os novos territórios. O impasse foi solucionado com a convocação do papa Alexandre VI para negociar os limites de exploração colonial entre essas duas potências europeias. O Tratado de Tordesilhas foi assinado em junho de 1494, estabelecendo a demarcação de um meridiano localizado a 370 léguas a oeste da ilha de Cabo Verde. Os territórios a oeste seriam explorados pelos espanhóis; as terras a leste deveriam ser controladas pelos lusitanos.

A ideia de dividir o mundo em dois, dando posse das terras a Portugal ou Espanha de acordo com a posição geográfica poderia ser excelente para portugueses e espanhóis, mas é claro que não agradava nem um pouco outras potências europeias. A Inglaterra se ressentia do domínio de Portugueses e Espanhóis, e desenvolveu uma maneira no mínimo heterodoxa de resolver o problema: criou e manteve uma frota mercenária, permitindo que corsários atuassem livremente nos mares. A rainha da Inglaterra outorgava a esses navegadores as cartas de corso, que na verdade eram autorizações para roubar. Os piratas rodavam o mundo atacando navios que faziam a travessia do oceano carregados de produtos das Américas. De volta à Inglaterra, pagavam tributo do saque à coroa e dividiam o resto com a tripulação. A pirataria era uma atividade tão perigosa quanto lucrativa, e os piratas tinham total apoio da realeza inglesa. Os franceses, por sua vez, passaram a organizar expedições marítimas para o Brasil em sinal do não reconhecimento do tratado, retirando das costas desguarnecidas quantidades gigantescas de pau-Brasil e o que mais julgassem valioso, mas logo resolveram mudar de estratégia. Em uma atitude de extrema ousadia, decidiram deixar a pilhagem de lado e tomar posse, usando todos os meios possíveis, da porção do Novo Mundo destinada aos portugueses: em 1555 a expedição francesa, comandada pelo Cavaleiro da ordem de Malta Nicolas Durand de Villegagnon atravessou o atlântico com o intuito de converter o Brasil no sonho da França Antártica.

A primeira notícia que os europeus tiveram do tabaco foi através de Colombo. Em 15 de outubro de 1492 ele anotou em seu diário que observou um índio navegando numa canoa levando água, comida e folhas de tabaco. Bartolomeu de Las Casas chegou ao Novo Mundo em 1502, portanto somente 10 anos depois da primeira viagem de Colombo, e logo percebeu que os espanhóis já faziam uso do tabaco, que em sua opinião havia se tornado um vício. Ele descreve o uso de um instrumento tubular, um pequeno galho oco em forma de Y, que era inserido nas narinas do usuário enquanto a ponta solta era usada para aspirar a fumaça da queima das folhas de tabaco. Ele reparou ainda que quando seus companheiros eram repreendidos por consumir a erva, diziam simplesmente que “não tinham forças para interromper”. É Bartolomeu de Las Casas que percebe pela primeira vez a característica viciante da planta. Até então, para um europeu, o consumo compulsivo de qualquer coisa venal não era considerada vício, e sim pecado. O conceito de vício simplesmente não existia na Europa e foi introduzido pelo consumo do tabaco.

Outra descrição do uso do tabaco foi feita por Gonzalo Fernandes de Oviedo, que chegou às Américas em 1513. Ele descreveu que “entre as práticas malignas, os índios possuem uma especialmente deletéria: a ingestão de um certo tipo de erva, chamada cohoba, de forma a produzir um estado de torpor. Eles usam um tubo em forma de Y, a que chamam tabaco, e inserem as extremidades nas narinas, enquanto a ponta solta fica recolhendo a fumaça das ervas que queimam”.

Tanto Oviedo quanto Las Casas percebem a existência do instrumento usado para aspirar a fumaça da queima. Las Casas, no entanto, não dá importância ao fato de que existe uma diferença entre o nome da erva e o nome do instrumento que os índios utilizavam para seu consumo. Oviedo é mais cuidadoso na sua descrição e esclarece que a erva se chama “cohoba” e, o instrumento, “tabaco” (curiosamente, é o nome do instrumento que acaba batizando a planta utilizada pelos nativos quando ela foi incorporada a cultura europeia).

A primeira leva de tabaco que chegou à Europa foi enviada para Portugal através Luís de Góes, donatário no Brasil, em 1542, sendo cultivada pela Farmácia Real em Lisboa, mas foi sua chegada na França que causou maior impacto. A primeira muda de tabaco a entrar na França foi através de André Thevet, frade franciscano que esteve no Brasil como capelão e cosmógrafo da expedição francesa chefiada por Villeganon, e um dos mais importantes cronistas das navegações.

Por natureza, Thevet era simples e causava uma pobre impressão. Baixo, franzino, parecia arrastar seu corpo, constantemente vergado. Dava a impressão de estar eternamente cansado, como se o desgaste de suas inúmeras viagens tivesse se alojado de forma definitiva em seus músculos. Uma obstrução crônica no nariz o obrigava a manter constantemente a boca aberta. Se fisicamente era destinado ao ocaso, encontrou no estudo a maneira de se destacar: tornou-se um sábio. Cosmógrafo do Rei, quando tomou parte na expedição de Villegagnon já era conhecido por ter publicado um relato de suas viagens no Oriente, e ostentava com orgulho a fama de tudo saber.

Ao observar o uso do tabaco pelos indígenas que habitavam as cercanias da baía de Guanabara Thevet anotou em seu livro As singularidades da França Antártica: “seu uso não é destituído de perigo, pois a fumaça, até que a pessoa se acostume com ela, produz suores e fraquezas, chegando mesmo a provocar síncopes”. Na tentativa de explicar os efeitos provocados pela fumaça do tabaco, Thevet comparou o estado dos que a aspiravam a um “certo atordoamento ou embriaguez semelhante à provocada pelos eflúvios de um vinho forte”. Ele teria ouvido dos indígenas que “esta planta é muito saudável, e quando fumada faz cessar a fome e a sede durante algum tempo”. O fato de o tabaco provocar o mascaramento da fome e da sede se deve, em grande parte, a uma ação específica da nicotina no cérebro humano. Ao entrar em contato com os neurorreceptores do sistema dopamínico-mesolímbico, o principal alcaloide do tabaco induz o cérebro a uma sensação de saciedade, conforme esclarece o artigo publicado na Science em 2011 Nicotine decreases food intake throug activation of POMC neurons. Thevet certamente se encantou com a planta, mesmo reconhecendo aspectos perigosos no seu consumo, tanto que, de volta à Europa, levou consigo mudas e as cultivou nos jardins de seu mosteiro. Thevet fazia uso constante da planta, foi um dos primeiros a cultivá-la na Europa e um dos principais divulgadores de seus efeitos.

O tabaco teve ainda outro grande padrinho que lhe abriu portas na Europa, o então embaixador da França em Portugal Jean Nicot. Nicot experimentou o tabaco em Portugal por volta de 1660 e acreditou que a isso se devia a cura de uma úlcera renitente que tinha na perna. Entusiasmado, enviou-a a rainha Catarina de Médicis, que informada de suas virtudes, usou-a para melhorar sua enxaqueca crônica. Não existem relatos de que a rainha tenha se livrado as enxaquecas, mas não existem dúvidas de que ela tenha ficado completamente viciada. Bastou a notícia do uso pela monarca se espalhar para que o tabaco virasse uma febre europeia. Nicot foi de tal forma um entusiasta do tabaco que quando seu principal alcalóide foi isolado na Universidade de Heildelberg, em 1828, recebeu o nome de nicotina.

A fórmula química da Nicotina e os padrinhos franceses do tabaco André Thevet (em cima) e Jean Nicot.

 

A partir daí, não demorou para o tabaco se espalhar por toda a Europa. Chegou à Espanha em 1559 e na Inglaterra em 1585. Seu uso se espalhou rapidamente, e ao mesmo tempo passou a ser visto como cura para muitas doenças importantes. Vale lembrar que o conceito de medicina vigente na Europa nessa época, herdado de Galeno, era a teoria humoral, segundo a qual a vida seria mantida pelo equilíbrio entre quatro humores: sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra. As doenças seriam manifestações corpóreas de um desequilíbrio entre os humores. Isso explica as incríveis máscaras usadas por médicos durante o século XVII, que continham um sinistro bico de ave onde os médicos colocavam ervas aromáticas que supostamente impediriam a entrada dos miasmas malignos. O tabaco, com sua fumaça e seus cheiros, se encaixava nesse conceito, e foi aceito como algo capaz de re-equilibrar os humores, ou afastar humores ruins.

mascara da peste

A sinistra máscara da peste, usada por médicos durante a peste londrina como forma de evitar o contágio. O bico era recheado de ervas aromáticas que, de acordo com a teoria humoral, evitavam que os miasmas entrassem nos pulmões dos médicos.

 

O uso do tabaco como proteção contra a peste foi muito além de uma crendice popular. Em 1665 o Colégio de Médicos de Londres emitiu uma diretiva onde recomendava a queima abundante de tabaco como forma de combater a praga. No Eton College, conhecido hoje como a escola mais antiga do mundo ainda em atividade, os meninos eram obrigados a fumar logo de manhã, antes das aulas. Dessa época sobrevive um relato onde um aluno da escola reclama que nunca havia sido tão chicoteado na vida como quando se recusou a fumar no colégio. Imagine a cena nos dias de hoje: uma sala cheia de crianças do ensino fundamental fumando antes da aula, sob os auspícios do diretor. Se ainda havia alguma restrição a seu uso, o contato com uma doença tão devastadora como a peste e a possibilidade de que o tabaco trouxesse alguma proteção derrubou por definitivo qualquer barreira.

Enquanto os ingleses apostavam nos piratas e os franceses se arriscavam na conquista do Brasil, os holandeses preparavam sua própria resposta ao Tratado de Tordesilhas. Com uma forte vocação naval, a Holanda desenvolveu uma frota enorme de navios aptos a fazer transporte transoceânicos, e começou a se especializar em carregamentos de especiarias vindas do oriente. As empresas holandesas dedicadas ao comércio de especiarias se reuniram, em 1602, fundando a poderosíssima Companhia Holandesa das Índias Orientais (em holandês,“Vereenigde Oost-Indische Compagnie”, ou simplesmente VOC). Não demorou para a VOC passar de comerciante de especiarias ao domínio territorial das regiões produtoras. Primeiro tomaram Jacarta em 1619, e dois anos depois invadiram ilhas do arquipélago das Molucas, grandes produtores de especiarias. Os ingleses mantinham uma única possessão na indonésia, a minúscula ilha de Run, com somente 2,5 km2, mas grande produtora de noz-moscada. A soberania inglesa sobre Run enfurecia os holandeses, porque representava o único empecilho impedindo seu monopólio sobre o comércio de especiarias na Indonésia.

O ano da peste foi terrível para a Inglaterra. Enquanto 1/5 da população era morta pela doença, a Holanda viu a oportunidade de subjugar a os ingleses e dominar definitivamente o comércio de especiarias do oriente. Em 1665 começou a segunda Guerra anglo-holandesa. Tendo que combater com Portugal e Espanha para poder comercializar produtos do Novo Mundo, combater com a Holanda para comercializar produtos do Oriente, e com sua população sendo dizimada pela peste, a Inglaterra não conseguiu manter uma resistência por muito tempo. Em 1667 a Holanda venceu a guerra e impôs aos ingleses a assinatura do tratado de Breda, tremendamente desvantajoso para a Inglaterra: esta teria que permitir o livre comércio nos mares, além de ceder aos holandeses duas de suas colônias ultramarinas- o Suriname e a ilhota de Run. Como contrapartida, recebia da Holanda os direitos sobre a ilha de Manhatam.

O Suriname era valioso porque ali crescia com facilidade a cana-de-açúcar (mais tarde seria um excelente lugar para a produção de café), e o interesse holandês na Ilha de Run ia muito além dos lucros garantidos do comércio de especiarias. Um dos motivos da troca era a crença na capacidade da noz-moscada em proteger contra a peste negra que havia dizimado a população londrina, e que visitava a Europa esporadicamente nos séculos XIV e XV.

Hoje se sabe que a peste londrina foi provocada pela bactéria Yersinia pestis, transmitida ao homem por picadas de pulgas que infectam ratos. O uso de um saquinho de noz-moscada pendurado no pescoço parece mais uma das superstições medievais, mas não é: a noz-moscada produz grandes quantidades de isoeugenol, um metabólito secundário da classe dos terpenos cujo cheiro tão característico funciona como um pesticida natural. Essa característica explica a atuação da noz-moscada no tratamento da peste negra- o isoeugenol da planta repelia as pulgas, o que diminuía a chance de contrair a doença.

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Fórmula química do isoeugenol e a remotíssima Ilha de Run. O terpeno presente na noz-moscada e seus efeitos contra a peste motivou um rearranjo geopolítico em escala mundial.

 

A grande praga de Londres e as plantas que a combateram tiveram efeitos que vão muito além do sofrimento humano causado às suas vítimas. Motivaram acordos internacionais e justificaram uma redistribuição de territórios ultramarinos. A peste foi determinante para que o tabaco vencesse qualquer resquício de resistência à sua aceitação, se tornando a planta que conhecemos: o primeiro produto do Novo Mundo que virou uma obsessão na Europa. Quanto à noz-moscada, se não fosse utilizada para afastar a peste, possivelmente o Suriname ainda seria colônia Inglesa, e Manhatam estaria nas mãos dos Holandeses. É um exercício interessante imaginar como seria o mundo hoje sem essas alterações promovidas pela peste e pelas plantas capazes de evitá-la.

Em relação ao Brasil, tudo o que diz respeito à aventura de Villeganon me é caro. O padre Thevet foi um dos principais cronistas da vida na região que viria a ser o Rio de Janeiro, e possuía uma curiosidade científica genuína que permitiu a entrada e o cultivo de mudas de tabaco na França. Todos os dias eu atravesso a Baía de Guanabara rumo ao trabalho e me pego observando ao longe a Ilha de Villegagnon. Sob a arquitetura duvidosa do edifício onde hoje funciona a Escola Naval, tento sobrepor os contornos do que foi o Forte de Coligny, erguido pelos franceses como quartel general de sua invasão. Todos os dias, indo ou voltando de Niterói, visito em pensamento a pequena Ilha escolhida pelos franceses como base para o que poderia ter sido a maior de suas conquistas, estrategicamente posicionada nas bordas da Baía e forçadamente aproximada do continente pelo aterro onde hoje funciona o Aeroporto Santos Dumont.  Nos breves momentos que consigo olhar a ilha nos olhos, sou atormentado pela inquietude de pensar o que seria o Brasil hoje se a insolência Francesa em agir contra o Tratado de Tordesilhas tivesse logrado sucesso.

 

 

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Sobre sabores e milagres: quando a humanidade salvou abóboras e abobrinhas da extinção

Na semana de Ciência e Tecnologia do ano passado a prefeitura de Niterói teve uma bela atitude, organizando a I Mostra Acadêmico-Científica de Niterói. Entre apresentações de grupos de pesquisa atuando na cidade, alguns mini-simpósios e outros pequenos eventos, o auge foi uma grande feira de ciências no Campo de São Bento. Ali, na barraca comandada pelo professor Alfred Scholl, tive a oportunidade há muito esperada de provar a miraculina.

Miraculina é uma glicoproteína que atua como modificador de sabor, uma de apenas um punhado de tais moléculas de ocorrência natural no mundo. No caso da miraculina, a parte proteica é composta de 191 aminoácidos que são conjugados com 5 diferentes glicídios, naturalmente produzida nas bagas de uma planta conhecida como Synsepalum dulcificum, que cresce em partes da África Ocidental. O que a torna tão especial é o fato de que, apesar dela própria não ter gosto doce, causar uma sensação de grande doçura se consumida antes de alguma coisa ácida.

Esse era exatamente o experimento proposto pela equipe do professor Scholl aos visitantes do Campo de São Bento naquela manhã de novembro: primeiro o visitante consumia uma pílula de miraculina. Após alguns minutos chupando a pequena pastilha, era convidado a chupar um limão. O resultado é de fato fascinante. O gosto do limão, tão reconhecidamente azedo, dava lugar a um doce indescritível. Por causa dessa propriedade tão interessante, as bagas da Synsepalum dulcificum são conhecidas como “fruta do milagre”.

A primeira menção à “fruta do milagre” foi feita por Reynaud Des Marchais, também conhecido como Chevalier de Marchais, um cartógrafo que navegou extensivamente pelas costas da África e Ásia a serviço do Rei da França. Em seus diários, publicados com o nome “Voyage du Chevalier des Marchais em Guinea, em 1725” ele escreve que “a fruta tem a propriedade de tornar doce qualquer coisa azeda ou amarga que se ponha na boca logo depois que é mascada”. Embora seja a primeira referência à sua incrível propriedade, Chevalier des Marchais estava errado, já que a baga não adoça substâncias amargas- somente as azedas, como veremos.

No livro “History of Dahomey” o mercador de escravos Archimbald Dalzel conta a história de uma dos mais poderosos Reinos da África, cujo epicentro é onde hoje se localiza o Benin. Nele é descrito que os habitantes consumiam as frutinhas antes de se alimentar com pães típicos, como o guddoe e o kanki, ou mesmo antes de tomar pitto, a cerveja local. Em comum, o guddoe, o kanki e o pitto têm o fato de serem extremamente azedos, fruto de um processo rústico onde os microorganismos responsáveis pela fermentação não são selecionados. Ali ocorre todo tipo de processo fermentativo, gerando grandes quantidades de ácido lático que interfere enormemente no sabor.

Na superfície da língua existem dezenas de papilas gustativas, cujas células sensoriais percebem os quatro sabores primários (amargo, azedo ou ácido, salgado e doce) além do chamado quinto sabor (Umame). As células sensoriais são estimuladas pelas moléculas presentes nos alimentos, disparando uma sinalização que vai até o cérebro, onde a combinação de estímulos é decodificada e sentimos o sabor dos alimentos.

Inicialmente, a explicação para os efeitos miraculosos da fruta era que a miraculina seria capaz de bloquear os receptores de todos os sabores presentes em nossa língua, menos os receptores para o sabor doce. Quando chupamos um limão, sentimos um gosto tão azedo que acreditamos que este seja o único sabor presente nessa fruta. No entanto, como todos os alimentos que consumimos, o limão é composto por vários sabores diferentes, que se combinam e resultam no gosto final. É claro que o sabor azedo se destaca, mas estão presentes ali moléculas salgadas, amargas e também açúcares, capazes de sensibilizar os receptores específicos para sabores doces em nossa língua. A explicação parecia fazer sentido: a miraculina seria capaz de inativar todos os receptores menos os responsáveis por sentirmos gostos doces. Assim, quando se consome um limão após ingerir a frutinha, pela primeira vez os sabores azedos que dominam estariam obscurecidos, abrindo espaço para que possamos sentir os açúcares. Mas o efeito da miraculina não ocorre quando ingerimos uma fruta amarga, por mais açúcares que ela possua. O efeito modificador do sabor só acontece quando são consumidos alimentos ácidos, e mesmo quando não são consumidos propriamente alimentos, mas meramente soluções ácidas como ácido acético ou ácido cítrico puros. O efeito adocicante é diretamente dependente da acidez.

O mistério sobre como atua a fruta só foi revelado recentemente, em um artigo de 2013 chamado “Molecular mechanisms of the action of miraculin, a taste-modifying protein”. Nele é demonstrado que a miraculina se liga de forma muito forte aos receptores responsáveis pela identificação do sabor doce em nossa língua. Sempre que o receptor estiver ligado à miraculina e entrar em contato com qualquer solução ácida, ele sofre uma alteração em sua conformação, tornando-se fortemente ativado. Ou seja, a miraculina, junto com uma solução ácida qualquer, faz com que os receptores para sabores doces sejam super-excitados. Diferentemente da explicação inicial, não é a percepção de outros sabores que fica inibida, mais a própria percepção dos sabores doces que fica super-ativada, sobrepujando qualquer outro gosto que o alimento tenha.

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Bagas de Synsepalum dulcificum, ricas na glicoproteína que recebeu o sugestivo nome de “miraculina”.

O potencial econômico dessa substância é magnífico, já que pode virtualmente tornar palatáveis vários alimentos de difícil aceitação. Além disso, o uso da miraculina poderia facilitar muito a vida de diabéticos, e virtualmente seria capaz de livrar a humanidade da obesidade. Seríamos capazes de saciar nosso vício por doces sem a necessidade de açúcares. Infelizmente, a baga fresca obtida a partir da Synsepalum dulcificum logo perde sua ação, durando no máximo 2 horas a temperatura ambiente. Exatamente por isso o experimento apresentado no Campo de São Bento era feito com pastilhas de miraculina, que hoje podem ser compradas pela internet, e que são feitas com a substância extraída e concentrada. Hoje já se pode experimentar os efeitos milagrosos da substância com alguma facilidade. O Miracle Fruits Cafe, em Tóquio, é um dos primeiros a usar a miraculina, ao oferecer aos clientes sobremesas com baixíssimas concentrações de açúcar, mas que devem ser consumidas somente depois que se come a fruta milagrosa, A popularização dessa substância certamente vai trazer novas formas de consumo, já que um composto que nos ajude a mascarar sabores indesejados é sempre bem-vindo. Afinal, alterar o gosto dos alimentos, minimizando sabores azedos ou amargos, é um desejo antigo que acompanha a humanidade desde os primórdios, e foi inclusive uma das diretrizes guiando os processos de domesticação de várias plantas.

Plantas do gênero Cucurbita, que inclui abóboras e abobrinhas estão entre as primeiras e mais importantes plantas domesticadas nas Américas. O gênero inclui aproximadamente 12 espécies, pelo menos cinco das quais foram domesticadas muito antes do contato europeu nas Américas do Sul, Central e do Norte. Abóboras e abobrinhas fazem hoje parte da nossa cultura, estão espalhadas pelo mundo e são consumidas em praticamente todos os países. Um grande sucesso evolutivo que esconde o fato de que elas estiveram muito próximas da extinção.

Há aproximadamente 10.000 anos a terra passava por mudanças profundas. Vivíamos a transição entre o Pleistoceno e o Holoceno, era a etapa final de um longo processo de glaciação, e os humanos primitivos começavam a experimentar com as plantas, iniciando a “invenção da agricultura”. Como resultado, as condições de vida na terra passavam por grandes alterações. Um dos efeitos mais dramáticos desse período foi a extinção em massa dos grandes mamíferos. Somente nas Américas estima-se que dezenas de espécies tenham desaparecido, incluindo mastodontes, mamutes e outros gigantes menos conhecidos.

Curiosamente, o registro arqueológico indica que havia uma grande variedade de Cucurbitas antes do Holoceno com um declínio muito grande a partir de então. O artigo “Neotropical anachronisms: The fruits the gomphotheres ate” sugere que nessa época a grande maioria das espécies de cucurbitas tenha desaparecido, ao mesmo tempo que desapareciam os grandes mamíferos. Hoje se sabe que a megafauna sofreu ação tanto das alterações climáticas quanto da atividade predatória dos seres humanos. Mas como explicar a redução drástica nas espécies de Cucurbitas?

Cucurbitas produzem terpenos chamados cucurbitacinas, que são muito amargos, além de serem tóxicos. A associação entre o gosto amargo e a toxicidade dessas substâncias desempenha nesse caso um importante papel evolutivo, ajudando a proteger a planta da atividade de herbívoros: humanos e outros animais tenderiam a se manter longe de um alimento tão amargo e perigoso. A habilidade de perceber sabores amargos está diretamente relacionada à presença de receptores específicos nas papilas gustativas, chamados receptores TAS2R. Sempre que uma substância amarga estiver presente vai ativar os receptores TAS2R e o indivíduo vai perceber o amargo no gosto. Acontece que a quantidade desses receptores cai em função inversamente proporcional ao tamanho dos animais, ou seja, animais pequenos possuem muitos receptores e animais grandes possuem poucos. Assim, cucurbitas eram palatáveis para animais da megafauna, mas possivelmente não para animais pequenos (incluindo humanos). Animais de grande porte, por não possuírem tantos receptores para o gosto amargo das cucurbitinas, consumiam normalmente esses vegetais. Elas continuavam sendo tóxicas para os grandes mamíferos, mas devido a sua enorme massa corporal, eles precisariam consumir muitos quilos de Cucurbitas para apresentarem algum efeito adverso da intoxicação.

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Correlação entre o número de cópias do gene TAS2R e a massa corporal. Alguns animais estão indicados. Quanto maior o peso do animal, menos cópias do gene ele tem. Animais pequenos são os mais sensíveis ao amargor das Cucurbitas selvagens.

Os grandes mamíferos, portanto, eram incapazes de sentir o amargor pronunciado de abóboras e abobrinhas, e consumiam normalmente essas plantas. Isso explica o porquê de, apesar da toxicidade, grandes quantidades de restos de abóboras e abobrinhas serem encontradas em fezes fossilizadas de grandes mamíferos. As plantas eram consumidas pelos grandes animais, mas suas sementes resistiam ao processo digestivo, sendo excretadas nas fezes. O bicho comia em um lugar, andava e defecava em outro, espalhando as espécies. As Cucurbitas se tornaram extremamente dependentes dos animais da megafauna para se disseminarem pela terra. Quando eles começaram a desaparecer, colocaram em risco a continuidade desse gênero: sem despertar o interesse dos humanos e perdendo seu principal meio de dispersão várias espécies de cucurbitas desapareceram. Aparentemente a extinção dos grandes mamíferos está conectada com a redução no número não apenas com Cucurbitas, mas de diversas espécies de plantas. Na ausência dos animais as plantas tinham duas alternativas: a adaptação (passando, por exemplo, a serem dispersas por outros animais) ou a extinção.

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Sementes de abóbora recuperadas de depósitos arqueológicos de fezes de Mamute, um aliado na dispersão das Cucurbitas, já que a baixa quantidade de receptores para gostos amargos tornavam essas plantas palatáveis aos grandes mamíferos.

Se abóboras e abobrinhas estão hoje nas mesas ao redor do mundo, devemos à capacidade que os agricultores primitivos tinham de melhorar os vegetais. Ao mesmo tempo em que declinava a quantidade de Cucurbitas selvagens devido ao processo de extinção dos grandes mamíferos, seres humanos começaram a perceber o surgimento de abóboras ou abobrinhas menos amargas e passaram a selecioná-los. Identificando a cada nova colheita os indivíduos que por alguma mutação aleatória produziam menos cucurbitacinas, foram gerando alimentos melhorados, aptos ao consumo humano. O processo de domesticação atuou sobre abóboras e abobrinhas no sentido de modificar seu sabor. Foi a capacidade dos humanos de perceber alterações nas plantas, selecioná-las e perpetuá-las que impediu que abóboras e abobrinhas tivessem o mesmo fim que mastodontes e mamutes.

Observando o efeito da domesticação sobre a expressão de cucurbitinas, e portanto sobre o gosto de abóboras e abobrinhas, não consigo deixar de pensar no quanto o nome “fruta do milagre” é inadequado para a frutinha que torna tudo doce. Ali, um composto de ação muito curiosa conferiu à planta sua principal característica, e deu a ela importância na cultura de povos africanos. Apesar de muito interessante, não há milagre nesse processo. A fisiologia por trás da percepção dos sabores já desvendou o mecanismo de ação da “miraculina”. O verdadeiro milagre está na seleção, no melhoramento lento e paciente que os primeiros agricultores conseguiram fazer com Cucurbitas selvagens. Ao selecionarem, geração após geração, plantas com conteúdo cada vez menor de cucurbitinas, tornaram abóboras e abobrinhas mais gostosas e menos tóxicas, resgatando essas plantas da extinção e garantindo um lugar para elas no mundo moderno.

 

PS- A ideia de utilizar a miraculina em alimentos como um substituto do açúcar foi concebida há quase 50 anos por um empresário chamado Robert Harvey, que começou a criar uma gama de produtos sem açúcar, revestidos com o extrato da fruta do milagre. Ele fundou uma empresa chamada Miralina, que aparecia destinada ao sucesso. Harvey promoveu um cultivo da planta em larga escala e desenvolveu um método de extração capaz de produzir quantidades industriais de miraculina. Em determinado momento, fez um teste cego com crianças, que experimentavam sorvetes feitos da forma tradicional (com açúcar) ou com miraculina, com resultados fantásticos de aceitação do produto.

Quando tudo parecia estar certo, e Harvey estava pronto para tornar-se um milionário, as coisas mudaram de maneira inesperada. Harvey começou a suspeitar que estava sendo espionado. Percebia carros o seguindo no trajeto de casa para o trabalho, ou pessoas suspeitas cruzando seu caminho. Uma noite no verão de 1974, relatou que seu escritório tinha sido invadido e seus arquivos roubados. Pouco depois, o Food and Drug Administration (FDA), que até então havia apoiado todas as requisições feitas em relação à substância, aparentemente mudou de ideia e declarou a miraculina como um aditivo alimentar. Isso significava que uma série de novos testes seriam necessários antes da liberação da substância para consumo, tornando o processo de liberação tão caro que ele simplesmente seria incapaz de arcar com os custos. Harvey suspeitava de jogo sujo, e sugeriu que a FDA tinha sido pressionada pelos poderosos fabricantes de açúcar e adoçantes artificiais, preocupados com o efeito da miraculina sobre seus negócios. Uma história incrível que foi contada no artigo “The ‘Miracle’ Berry That Could Replace Sugar” publicado na revista Atlantic em 2014.

 

 

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Est omen in nomen (o destino está no nome)

Moacyr Scliar manteve durante anos uma coluna no jornal Zero Hora, onde, entre outras coisas, colecionava “nomes que condicionam destinos”. Ali ele dava exemplos de pessoas cujo nome, por coincidência, tem relação com suas profissões. Lembro de um Sérgio Fiscal, que é advogado tributarista, Giane Portal, uma webdesigner, e o incrível Dr. John Colapinto, norte-americano que escreveu um livro contando a história de um menino que sofreu uma lesão peniana. Como Scliar morreu em 2011, esse importante trabalho investigativo continua hoje com o José Simão. Eu também gosto do tema e aproveito esse texto para dar minha contribuição.

A história dos morangos é bem antiga, remontando às civilizações romana e grega. No entanto, não eram morangos como conhecemos, mas sim morangos silvestres (Fragaria vesca), menos doces e menores dos que consumimos hoje. Eles não possuíam uma grande importância na alimentação e talvez por isso seja difícil encontrar referências ao morango em textos clássicos. Theophrasto, Hipocrates e Dioscorides não mencionam o morango em nenhum dos seus escritos. Virgílio e Ovídio citam o morango em alguns de seus versos, mas nunca dão muita ênfase a ele, sempre mencionando os morangos junto com outras frutas. No livro de número 21 do Naturalis Historia, Plínio lista a “fraga”, como um dos produtos típicos da Itália. Ele foi o último escritor conhecido que citou o morango durante muitos séculos.

Por volta do século XIII ocorriam na França as primeiras tentativas de levar os morangos silvestres para o ambiente controlado de um jardim. A intenção dos primeiros agricultores era a aplicação ornamental do morango, muito mais do que sua utilização na alimentação. Nessa época o morango ganha um grande patrono: o Rei Carlos V. Encantado pela fruta, em 1368 ele ordenou ao seu jardineiro que plantasse morangos nos jardins reais do Louvre, popularizando o morango.

No final dos anos 1300, um novo espírito parecia dominar lentamente a Europa. Nas artes, isso se refletia em uma maneira mais leve, livre e natural de representação. Emile Mâle, em sua extensa pesquisa sobre a arte gótica, chama esse processo de “nascimento da ternura humana” e sugere que ele se iniciou com São Francisco de Assis. Em seu amor por todos os seres vivos, São Francisco teria disseminado a devoção pela natureza e a necessidade de retratá-la.

Nessa época os monges adornavam seus livros de orações com pinturas e ilustrações, ora nas margens das páginas, ora nos rodapés, chamadas miniaturas. Não à toa, no final do século XIV surgem cada vez mais miniaturas voltadas para a natureza. Muitas vezes são desenhos avulsos de frutas nas margens das páginas, e chama atenção a quantidade de vezes que encontramos desenhos de morangos. Em uma miniatura feita por volta do ano 1400 nós vemos um morango nas mãos de José, que o oferece ao menino Jesus. Em outra, Maria e Jesus estão em uma paisagem rural, enquanto anjos trazem morangos para Jesus. É provável que os monges tenham começado a desenhar morangos simplesmente por sua incrível aparência, já que morangos são de fato uma fruta muito distinta. A cor, o formato de coração e o fato de ser a única fruta que possui sementes do lado de fora não poderiam passar despercebidos. Mas não podemos descartar a possibilidade de que eles também estavam tentando agradar Carlos V, que além de admirador de morangos era um conhecido patrono dos miniaturistas.

Algumas miniaturas medievais, presentes em livros de oração. O morango é frequentemente encontrado nessas miniaturas. Talvez por seu formato, sua cor, ou simplesmente porque o rei Carlos V era um grande patrono dos miniaturistas.

 

Havia um grande intercâmbio de produtos entre os mosteiros nessa época e não demorou até que a moda dos morangos alcançasse a Alemanha, Bélgica, Holanda e Inglaterra. Em pelo menos três pinturas alemãs dos anos 1300 o morango desempenha um papel importante: “A Madonna das Rosas”, “O Jardim do Paraíso” e “Madonna entre os morangos”. Bosch também usou o morango como tema de uma de suas pinturas mais complexas: “O Jardim das Delícias Terrenas”. Na parte de baixo do painel central, um grupo de três pessoas nuas se debruçam sobre um morango enorme e parecem se alimentar dele. Não existem dúvidas, portanto, que morangos silvestres eram parte da vida da Europa medieval. Quando os conquistadores chegaram às Américas também encontraram o morango selvagem, que crescia ao nível do mar na costa do Oceano Pacífico, e por vezes subia pela cordilheira dos Andes até 2000 metros de altitude.

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O Jardim das Delícias Terrenas, de Hieronymus Bosch, pintado entre 1503 e 1515. Na parte de baixo do painel central, três pessoas parecem se alimentar de um enorme morango.

 

Em 1551, depois de 15 anos de tentativas frustradas de conquista do território onde hoje é o Chile, Pedro de Valdivia, nomeado por Francisco Pizarro comandante supremo das tropas espanholas em Cuzco, consegue penetrar na região central do Chile, onde vivia o povo Mapuche. Após uma luta sangrenta, os Espanhóis finalmente tomam posse de uma terra há muito desejada. Entre os despojos da guerra eles listam um tipo de morango muito maior do que os que haviam na Europa. A nova variedade é transportada até Cuzco. Garcilazo de la Vega a descreve em seu livro “Commentarios Reales de los Incas”, dizendo que chegou a Cuzco em 1557 um fruto agradável, com sementes pequenas em sua superfície e com polpa em formato de coração. Incapaz de dar um nome peruano à fruta, ele a chama de Chili. Era a espécie Fragaria chiloensis, domesticada a partir dos morangos silvestres pela tribo Mapuche. Esse povo sabia que tinha obtido uma variedade melhorada a partir do cultivar original, tanto que tinha palavras distintas para descrever os diferentes morangos; a variedade selvagem era llahuen, enquanto a melhorada era chamada quellghen. O Chili, nomeado por Garcilaso de La veja, receberia dos conquistadores ainda outro nome e se perpetuaria como frutilla.

Uma das primeiras descrições do morango chileno a chegar à Europa foi na “Historia Relation del Reyno de Chile”, publicado em 1646 pelo missionário Alonso de Ovalle. Ovalle viveu no Chile até 1641, e escreveu que “frutos de Jardim nunca são vendidos, e qualquer um pode entrar em um jardim e comer tanto quanto gostar sem qualquer restrição. Apenas morangos, que são chamados frutilla, são vendidos. Embora eu os tenha visto crescendo selvagens por milhas, eles são muito caros quando cultivados. Seu gosto e cheiro diferem daqueles que eu vi em Roma. Em tamanho eles são tão grandes como pêras e são principalmente vermelhos, mas há também os brancos e amarelos”.

No início do século XVIII Louis XIV estava determinado a obter informações completas sobre as colônias da Espanha no Novo Mundo antes que a presença espanhola estivesse forte o bastante para impedir um possível ataque francês. O tenente-coronel Amédée François Frézier era membro do Corpo de Inteligência do Exército Francês e tinha trinta anos quando, em 1711, foi contratado para a missão de reconhecimento das colônias espanholas do Chile e do Peru. Frézier era o homem certo para esse serviço. Engenheiro experiente, excelente matemático, com conhecimentos de botânica e qualificado para fazer observações hidrográficas e anotações pertinentes sobre a posição das fortificações, tamanhos dos exércitos, posição dos melhores ancoradouros e seus respectivos perigos. Anotações que seriam de grande utilidade para os franceses no caso de uma guerra com a Espanha. Frézier era nada menos que um espião, que entrou na América espanhola como se fosse comerciante. Durante os quase dois anos que passou na América, ele observou, estudou, anotou e desenhou as melhores abordagens para o ataque, onde a munição era armazenada e as possíveis rotas de fuga. Frézier fez amizade com funcionários espanhóis que, se tivessem conhecimento da verdadeira natureza da sua missão, teriam lhe tirado a vida. Em seu relatório, que foi publicado com o nome “Relation du Voyage à la mer du Sud, le long de la côte du Chili et Pérou, réalisés au cours des années 1712,1713 et 1714”, ele estimou a força da administração espanhola em cada área que visitou, passou em revista a organização do governo, avaliou seu poder sobre os índios e o apoio que poderia ser esperado no caso de guerra. Ele observou que os espanhóis estavam apenas começando a desenvolver a exploração de ouro e prata e previu que estes se tornariam uma fonte de grande riqueza. Em suas excursões para os portos e as capitais do Chile e do Peru, o viajante também informou sobre as operações da Igreja, a organização social e os costumes dos índios, a geografia da área e seus produtos agrícolas. Ele comentou sobre tudo, desde terremotos à diversidade das estações nas planícies e na Cordilheira, além de descrever várias plantas novas que ele tinha notado, entre as quais um morango excepcionalmente grande que ele havia encontrado na região central do Chile.

Em 19 de Fevereiro de 1714, aproximadamente dois anos após chegar ao Chile, Frézier inicia sua viagem de volta à França levando consigo várias plantas de morango das quais cuidou pacientemente durante toda a viagem. Mais tarde, em 1765, Frézier descreveu a viagem de retorno em uma carta para Antoine Nicolas Duchesne, que estava escrevendo seu livro clássico sobre morangos “Histoire naturelle des fraisiers contenant les vues d’économie réunies à la botanique et suivie de remarques particulières sur plusieurs points qui ont rapport à l’histoire naturelle générale”.

 

“Retornei em um navio mercante de Marselha, cujo capitão, M. Roux de Valbonne, tinha o direito exclusivo de regular o consumo de água doce, que é muito preciosa em uma viagem de seis meses através da zona mais tórrida do oceano. Dessa forma, foi muito difícil conseguir água para regar e manter vivas as plantas de morango até a nossa chegada a Marselha, onde havia milagrosamente cinco plantas vivas. Eu fiquei com três e o capitão reclamou duas para si. Em minha chegada a Paris dei um dos meus exemplares para que Antoine Jussieu a cultivasse no jardim do rei, e outro para M. Peletier de Souzy, nosso ministro de fortificações. A terceira, mantive comigo.”

 

Frézier foi o único explorador conhecido a trazer espécimes de F. Chiloensis de volta para a Europa, dando ao Velho Mundo a oportunidade de conhecer e utilizar os frutos gigantes do Chile.

Inicialmente, os morangos chilenos tiveram um período difícil de adaptação na Europa. As plantas cresciam bonitas, mas não davam qualquer fruto. Jussieu, chefe do Jardim Botânico Real, colaborava com diversos outros botânicos ao redor da Europa, e enviou mudas das plantas chilenas para seus colaboradores. Um desses, o médico e botânico holandês Herman Boerhaave, publicou um estudo sobre as plantas que Jussieu tinha lhe dado, onde as designou como “morango do Chile sem frutos”.

Outros Jardins Botânicos estavam com o mesmo problema, e em 1766 Duchesne conseguiu explicar o motivo: o morango apresenta uma separação clara entre plantas masculinas e femininas. Plantas masculinas apresentam dezenas de pequenas flores, nas quais existe uma grande quantidade de estames (o órgão masculino nas flores), mas que simplesmente não possuem as partes femininas. As plantas femininas são maiores e mais vistosas, e isso deve ter levado Frézier a cometer o erro de selecionar somente plantas femininas para trazer à Europa, aparentemente mais robustas e aptas a sobreviver a uma travessia transoceânica.

A identificação de que plantas do Chile apresentavam separação entre sexos foi muito importante, porque o mesmo não acontece com morangos silvestres, onde a mesma planta possui tanto órgãos masculinos quanto femininos. Hoje sabemos que outra diferença fundamental entre espécies selvagens e domesticadas de morango diz respeito à ploidia, ou a quantidade de conjuntos de cromossomos que um indivíduo ou espécie possui. Humanos, por exemplo, possuem 46 cromossomos, que herdam dos pais (23 cromossomos herdados da mãe e 23 cromossomos herdados do pai). Dessa forma, o conjunto básico de cromossomos da espécie humana é 23, e como possuímos 46 cromossomos, somos seres diplóides. Assim como somos seres diplóides, existem seres triplóides, tetraplóides e poliplóides.

O morango silvestre (F. vesta) é um diploide que possui 14 cromossomos (portanto herda 7 cromossomos da planta mãe, e 7 cromossomos da planta pai), enquanto a variedade F. chiloensis é octaplóide, com um número total de 56 cromossomos.

Uma das perguntas mais intrigantes que os evolucionistas de plantas enfrentam é porque existem tantas espécies de plantas poliplóides. Especialmente entre as plantas cultivadas, a maioria de espécies têm números cromossômicos elevados. O aumento no número de cromossomos em uma planta pode ter diferentes efeitos. No caso do morango, ele está diretamente relacionado à separação entre os sexos e ao aumento de tamanho do fruto. Os Mapuche certamente não puderam deixar de perceber esse aumento no tamanho da fruta e obviamente viram nisso uma vantagem. Eles não foram responsáveis diretos pelo aumento da ploidia, que aconteceu por alguma mutação aleatória, mas foram capazes de selecionar essas plantas, dando início à nova espécie de morangos do Chile.

Tendo levado para a Europa somente plantas femininas, os botânicos tentavam polinizá-las com as variedades de morangos silvestres, mas não é qualquer pólen que pode fertilizar a F. chiloensis. Somente algumas variedades são capazes de fazê-lo e números muito distintos de cromossomos dificulta muito a tarefa de fertilização. Conforme novos tipos de morango eram identificados e chegavam à Europa, os Jardins Botânicos se dedicavam a cruzá-los com as variedades já conhecidas para ver o que acontecia.

Na França, uma dessas novas variedades, identificada na América do Norte e que também tinha frutos grandes (F. virginiana), apresentou ótimos resultados quando era utilizada para polinizar as plantas do Chile. Não à toa ela também é uma planta octaplóide, explicando o grande sucesso que os botânicos tiveram na fertilização das plantas chilenas. As plantas resultantes davam frutos excelentes, bonitos e grandes. Além disso, cresciam em lugares onde a variedade chilena não crescia, permitindo uma disseminação maior do plantio. Nascia assim o morango que consumimos hoje (Fragaria x ananassa).

No ano 916, portanto 800 anos antes de Frézier reconhecer o valor das frutas gigantes do Chile, um sujeito de nome Julius de Berry, lutava ao lado de Carlos, o Simples, então Rei da França. Em uma viagem à Itália, o Rei parou em Auvers onde se encontrou com o Cardeal italiano Clemens de Monte Alto para resolver algum assunto político. Os franceses organizaram um grande banquete para receber o Cardeal e Julius preparou uma série de iguarias com os morangos silvestres que cresciam naquela região. O Cardeal ficou tão impressionado com os pratos que o rei francês resolveu elevar Julius de Berry à condição de cavaleiro, e como era comum na época, mudou seu sobrenome de Julius de Berry para Julius Fraise (que em francês significa morangos). Ao longo dos anos a linhagem dos Fraise prosperou e o nome acabou virando Frézier. Amédée François Frézier era descencente do cavaleiro Julius e herdou seu sobrenome exatamente da planta que ajudaria a transformar em uma das mais conhecidas do mundo. Nada mais apropriado do que um Frézier para descobrir as “fraises” do Chile.

 

PS- O nome científico do morango moderno, Fragaria x ananassa merece uma explicação. A presença do “x” entre as duas palavras é um indicativo que se trata de um híbrido entre duas espécies distintas. No nosso caso, entre a F. virginiana e a F. chiloensis.

 

PS2- Um dos livros mais completos sobre o morango, e fonte fundamental para esse texto é “The Strawberry, History, Breeding and Physiology”, escrito pelo botânico norte-americano George M. Darrow. Para minha surpresa, o primeiro capítulo, uma espécie de introdução, foi escrito por Henry Wallace, vice-presidente dos Estados Unidos durante a segunda guerra mundial, entre 1941 e 1945, quando o presidente era Roosevelt. Além de político, Wallace era botânico e já havia inclusive sido ministro da agricultura. Era um grande entusiasta dos morangos. Nunca foi um vice-presidente decorativo e muitos diziam que era o homem mais preparado para assumir a presidência em seu tempo. Foi removido da chapa que concorreu à reeleição em 1945, perdendo o lugar para Truman (que assumiria o cargo 3 meses depois, com a morte de Roosevelt). A substituição de Wallace por Truman é um evento muito obscuro da política dos EUA e está no livro “A História Não Contada dos Estados Unidos”, de Oliver Stone e Peter Kuznick. As manobras políticas que removeram Wallace da chapa, e a morte prematura de Roosevelt levantam a suspeita de que havia um complô para colocar Truman no poder, não através do voto direto, mas pegando carona nos votos de Roosevelt. Enquanto alguns vice-presidentes dão golpes, outros sofrem golpes, como foi o caso de Wallace.

 

PS3- Se de fato nomes condicionam destinos, e aproveitando que estamos falando de vice-presidentes, temos mesmo que temer o Temer!

 

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Sobre roubos e encontros: o amendoim no caminho Peabiru

No dia 2 de fevereiro de 2012 um tipo muito curioso de roubo aconteceu no Instituto de Botânica da USP, na zona sul de São Paulo. Depois de almoçarem no refeitório do Instituto e fazerem consultas no acervo da biblioteca, cinco pessoas anunciaram o assalto. Renderam os seguranças e bibliotecários e levaram onze volumes da obra Flora Fluminensis; cinco de Sertum Palmarum Brasileinsiun; dois de Le Bambusées; além de exemplares de Graminium Genera, Herbarium Amboinense, Plantarum Brasiliae e Flora Brasilica. Uma ação cinematográfica para roubar livros raros de botânica (alguns deles com valor estipulado de 60.000 reais) não é algo que se vê toda hora.

Eu acompanhei com muito interesse o desenrolar desse caso e não havia um único dia durante algumas semanas, que eu não buscasse notícias sobre as investigações. O evento acabou servindo para que eu conhecesse os livros. Por trás da sordidez de um assalto à mão armada contra o patrimônio botânico nacional, que pelo menos eu aumentasse minha cultura botânica.

Em fevereiro de 1987 um grupo de huaqueros (como são conhecidos os ladrões de túmulos nos Andes), procurava tesouros enterrados de civilizações antigas próximo à vila peruana de Sipán. Nem o caçador de relíquias mais otimista, no entanto, poderia esperar encontrar relíquias tão valiosas quanto à que eles acharam. Um dos ladrões acessou uma câmara repleta de ornamentos de ouro e prata e em menos de 24 horas as relíquias já estavam nas mãos de atravessadores que sabiam para quem vender o material.

Quando os habitantes de Sipán e de vilarejos vizinhos ficaram sabendo do volume de dinheiro obtido com o roubo, deu-se início a uma onda de novos huaqueros buscando um sucesso semelhante às custas dos tesouros arqueológicos. O estrago seria ainda pior se o arqueólogo peruano Walter Alva não percebesse o que estava acontecendo e mobilizasse as autoridades para impedir a ação dos assaltantes de sítios arqueológicos. Alva foi a primeira pessoa a perceber a importância daquele lugar e conseguiu levantar dinheiro para cercar o sítio arqueológico e protegê-lo dos assaltantes.

Muitas pessoas pensam nos Incas como a civilização nativa da América espanhola, mas eles não são, nem de longe, os primeiros habitantes dessa região. Acredita-se que a civilização Inca surgiu por volta o ano 1100 DC e devido a impressionantes níveis de desenvolvimento, tenham dominado sistematicamente os povos que os precederam, sendo destituídos apenas pela chegada dos espanhóis no século XVI.

Antes do surgimento dos Incas, o território andino era dividido entre diferentes etnias. De acordo com o arqueólogo Julio Tello, conhecido como o “pai da arqueologia peruana”, as terras altas dos Andes, por volta do ano 200 DC eram dominadas pelo povo Tiahuanaco, enquanto a região litorânea era dominada por duas etnias distintas. Na costa norte, reinavam o povo Moche e na costa sul, a cultura Nazca.

O sítio saqueado pelos huaqueros foi identificado por Alva como um importante centro Moche de cerca de 1500 anos, mais especificamente um local ritualístico dedicado à realização de enterros de membros da elite Moche, o que fica claro devido à riqueza dos bens encontrados dentro das sepulturas.

Uma delas, que Alva identificou como a sepultura de um importante sacerdote Moche, possuía uma ornamentação riquíssima e bastante preservada. Uma mulher jovem e uma lhama acompanhavam o sacerdote na tumba, juntamente com muitas peças de ouro, prata, pedras preciosas e têxteis. Foi achado um cocar feito com penas de flamingo, que só poderia ter sido importado do Chile. É possivelmente a tumba mais rica já encontrada na América do Sul e sobre ela Alva escreveu o artigo Discovering the New World’s Richest Unlooted Tomb, publicado na National Geographic em 1988. Nessa tumba Alva encontrou somente um objeto que representa um alimento: um colar formado pela união de peças de outro e prata com o formato de sementes de amendoim (Arachis hypogaea) estava no pescoço do sacerdote.

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O incrível colar de ouro e prata encontrado pelo arqueólogo Walter Alva na tumba de um sacerdote Moche.

 

Esse achado deixa clara a importância que o amendoim tinha para a cultura Moche. Uma relação que se iniciou muitos anos antes, uma vez que os primeiros achados arqueológicos envolvendo o amendoim datam de 3800 anos atrás e foram encontrados em escavações arqueológicas na costa peruana. Era a planta ideal para os povos pré-colombianos: suas sementes são ricas em proteínas e em óleos, crescem debaixo da terra, protegidas de temperaturas e ventos extremos (de acordo com o Novo Dicionário da Língua Portuguesa, o termo “amendoim” é derivado da palavra tupi mãdu’bi, que significa “enterrado”). Além disso, o amendoim pode ser consumido cru, uma característica que deve ter sido determinante para seu sucesso, porque em tempos pré-históricos, quando ainda não se conhecia a técnica de produzir cerâmica e ainda não se dominava o fogo (ambos fundamentais para o cozimento de alimentos) ele permanecia como uma excelente opção de alimento.

O amendoim pertence ao gênero Arachis, que engloba 80 espécies. Dessas, 63 ocorrem (e 46 são exclusivas) do Brasil. O botânico e médico alemão Johann Baptist Emanuel Pohl, autor de um dos livros roubados da biblioteca da USP (Plantarum Brasiliae) é um dos precursores da etnobotânica. Ele estabeleceu as bases para a identificação de sítios de domesticação, determinando que o local provável de domesticação de uma espécie é onde ela apresenta a maior variedade. Não à toa, Pohl indica o Brasil como lugar mais provável de domesticação do amendoim.

Outra das obras roubadas, Flora Brasílica é uma série de livros publicados pela Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo entre 1940 e 1955. A ideia da coleção era atualizar e ampliar a coleção Flora Brasiliensis, escrita por Von Martius e publicada meio século antes na Europa. Foi planejada e iniciada por Frederico Carlos Hoehne, diretor do departamento de botânica de São Paulo e dedica um volume inteiro ao amendoim, onde também defende que o Brasil é lugar com a maior possibilidade de ter ocorrido a domesticação.

Embora essas duas obras de peso indiquem o Brasil como centro da domesticação, essa questão sempre gerou muita controvérsia. Se é no Brasil que se encontra a maior diversidade, a espécie que se parece mais com o amendoim comercial é original da Argentina e isso lança dúvidas sobre o local exato onde a domesticação ocorreu. Além disso muitos pesquisadores defendem a hipótese de que não exista um ancestral único do amendoim comercial e que ele foi o resultado de múltiplos cruzamentos entre espécies distintas.

O amendoim comercial possui 40 cromossomos, enquanto a maior parte das espécies selvagens possui a metade disso, 20 cromossomos. Assim, a domesticação necessariamente passou por uma etapa de duplicação do conteúdo genético. Uma das perguntas mais intrigantes para quem trabalha com desenvolvimento de plantas, é porque existem tantas espécies que sofreram processos de duplicação do conteúdo genético. Especialmente entre as plantas cultivadas, a maioria das espécies têm números cromossômicos elevados. Ciclos de duplicação do genoma podem acontecer naturalmente como resultado de alguma mutação e têm sido documentados em diferentes cultivos, incluindo milho, soja, algodão e muitos cereais importantes. O papel desse processo não é totalmente claro mas parece apresentar pelo menos uma vantagem para o vegetal: o artigo Polyploidy and self-fertilization in flowering plants indica que plantas com genoma duplicado tem uma capacidade maior de fazer autopolinização.

Uma planta que está fazendo fertilização cruzada, recebendo pólen de uma planta vizinha, por exemplo, está “jogando na loteria” porque está arriscando a fusão de seus genes com um material genético de uma planta “desconhecida”. Já plantas que fazem autofertilização sabem muito bem a procedência dos genes com os quais está reproduzindo, já que é o seu próprio material genético. Como essa planta está em fase reprodutiva, existe um alto grau de certeza que a prole terá condições de chegar também à fase reprodutiva e a espécie se perpetua.

Em um contexto evolutivo, a autofertilização também pode apresentar desvantagens. Caso o indivíduo esteja em um ambiente em constante alteração, com novas pressões evolutivas surgindo a cada momento, a diversidade genética é fundamental para que o indivíduo consiga se adaptar às novas situações que o ambiente está impondo. Nesse contexto, dificultar a mistura de coleções genéticas pode ser bastante prejudicial porque diminui a variabilidade genética dentro da população. Mas estamos falando do amendoim, uma planta que estava sendo cultivada pelos nativos da América do Sul, mesmo que de forma ainda rudimentar. É uma planta que está sob acompanhamento de alguma população humana e o agricultor tenta reproduzir sempre as condições que lhe garantiram uma boa colheita anteriormente. Em um ambiente assim, as mudanças são limitadas.

De fato, o amendoim domesticado é capaz de se autofertilizar. A mutação genética que duplicou seu genoma garantiu uma padronização da colheita que deve ter sido muito bem-vinda para os nativos. Resultou num produto sobre o qual eles passaram a atuar, selecionando as características de cor, sabor, tamanho e produtividade que mais os interessava. As características desejadas podiam aparecer naturalmente, através de alguma mutação aleatória mas também podiam ser fruto de cruzamentos com outras variedades. Nesse ponto, facilitar os encontros entre diferentes variedades de amendoim (selvagens ou em processo de domesticação) pode ter acelerado a obtenção do amendoim comercial moderno.

Todo o período do Brasil Colônia foi marcado pela rivalidade entre portugueses e espanhóis, que mesmo após dividirem o Novo Mundo através do Tratado de Tordesilhas, ainda buscavam maneiras de obter recursos no território vizinho. Isso era ainda mais importante pelo lado dos portugueses, porque, ao encontrarem inicialmente no território brasileiro principalmente riquezas vegetais como o pau-brasil, invejavam os relatos de que havia de ouro e prata no território espanhol. A coroa portuguesa se empenhou ao máximo em descobrir caminhos secretos que lhe permitissem atravessar o continente virgem até chegar aos Andes.

A principal dessas rotas foi o caminho Peabiru, uma via que ligava Cusco, no Peru (embora talvez se estendesse até o Oceano Pacífico), ao litoral brasileiro. Estendendo-se por cerca de 3.000 quilômetros, atravessando os territórios de Peru, Bolívia, Paraguai e Brasil, o caminho passava pelas regiões das atuais cidades de Assunção, Foz do Iguaçu, Curitiba, Botucatu, Sorocaba e São Paulo, até chegar a Capitania de São Vicente. Ainda havia outros ramos do caminho que terminavam onde hoje é a cidade de Florianópolis.

Atraídos pelos relatos sobre as riquezas existentes nos reinos à oeste, que atiçavam a cobiça dos portugueses, não tardou até que os primeiros aventureiros se lançassem em viagens pelo interior do Brasil. A primeira expedição que buscou percorrer o Peabiru provavelmente foi a do português Aleixo Garcia, que partindo de Santa Catarina com dois mil índios, teria utilizado o caminho para atravessar o sertão, seguindo até os Andes. Ele teria chegado ao local onde hoje é a cidade de Sucre, na Bolívia, em 1524, oito anos antes do desembarque de Francisco Pizarro e da conquista do Peru.

Em 1530 Martim Afonso de Sousa partiu de Portugal em uma missão com diversos objetivos: combater os traficantes franceses que cismavam em desrespeitar a posse da Coroa Portuguesa sobre o novo território, reforçar o povoamento do Brasil fundando novas cidades ou fortificações e ir em busca dos tesouros andinos, justamente usando os lendários caminhos pela mata. Já em 1531, antes de fundar a primeira vila da América, São Vicente, Martim Afonso organizou uma expedição e enviou como comandante seu subordinado Pero Lobo. Mesmo após fundar a cidade de Curitiba, a expedição teve um final trágico: durante a travessia do Rio Paraná foi dizimada pelos índios Guaranis.

Em 1542, o espanhol Alvar Núñez Cabeza de Vaca embrenhou-se pelos caminhos da mata e acabou por descobrir as Cataratas do Iguaçu. Durante todo o século XVI foram constantes os relatos de viagens pelo interior das matas rumo aos Andes. Johan Ferdinando (1549), os companheiros de Hans Staden (1551), o jesuíta Leonardo Nunes, Brás Cubas, Luís Martins (todos em 1552) e o alemão Ulrich Schmidel (1553) foram alguns que exploraram o Peabiru em maior ou menor extensão.

Existe muito mistério sobre quem teria criado o caminho. Alguns estudiosos acreditam que ele tenha sido uma obra dos Incas, que talvez tenham visado o alargamento de seu grande império. Alguns estudos levam a crer que o Peabiru poderia ser inclusive pré-incaico, fruto de épocas ainda mais remotas. Mas há quem acredite que ele seja obra dos nossos próprios indígenas, principalmente os tupis-guaranis, que buscavam a lendária “terra sem mal” que acreditavam existir na direção dos Andes.

O termo Peabiru tem origem tupi-guarani (“pe”- caminho; “abiru”- gramado amassado) e o próprio significado do nome depõem a favor da origem incaica da estrada porque as estradas incas eram semeadas com certas gramíneas selecionadas que impediam o surgimento de outras plantas. Assim, a presença dessa vegetação em muitos trechos do caminho fugiria dos costumes dos índios que habitavam o território brasileiro à época do descobrimento. Um dos primeiros escritores nativos das Américas, Rui Díaz de Guzmán, que escreveu em 1573 Uma Historia da Argentina, dá outra versão que também sustenta uma origem incaica para o caminho. De acordo com ele os Incas se referiam ao seu território como Biru, e portanto, Peabiru seria “caminho que leva ao Biru”. Essa seria a provável origem do nome dado ao Peru. Independente de quem o construiu, o Peabiru parece ter sido uma rota bastante movimentada ligando os oceanos Atlântico e Pacífico, utilizado para conquistas, explorações e principalmente comércio entre os povos andinos e os índios brasileiros.

Esse intenso tráfico através do Peabiru pode ter favorecido muito a troca de plantas entre essas civilizações. O amendoim é pequeno e não estraga fácil suportando longos trajetos sem qualquer cuidado especial no transporte, além de ser muito nutritivo. Isso faz dele uma planta fundamental para quem quer se locomover por longas distâncias. Por isso, estudar a história do amendoim é também estudar a história das migrações humanas, especialmente na América do Sul.

De fato, é comum que se encontre populações de diferentes espécies de Arachis junto à sítios arqueológicos e o próprio Flora Brasílica, surrupiado em São Paulo, descreve a presença de Arachis stenosperme, uma variedade selvagem, junto à sítios arqueológicos em São Paulo. O pesquisador da Embrapa José Francisco M. Valls, destaca que diversas populações do gênero Arachis têm sido coletadas próximo a sítios arqueológicos que acompanham em geral o suposto traçado do Peabiru.

Assim, a existência de uma rota de comunicação cruzando desde a costa brasileira até o território Inca fez com que houvesse uma intensa troca de sementes entre essas regiões. Isso reforça a hipótese de que, ao longo dos anos, diferentes espécies selvagens de amendoim fossem levadas para regiões fora de sua ocorrência natural, proporcionando a chance de que espécies que naturalmente não habitavam o mesmo ambiente se encontrassem e eventualmente cruzassem. Esses cruzamentos entre plantas de diversas origens geraram novas espécies de amendoim, que foram selecionadas pelos nativos de acordo com as características que lhes interessavam. O caminho Peabiru, muito mais do que unir territórios tão distantes e cruzar um continente inteiro, também proporcionou os encontros que parecem explicar o surgimento do amendoim comercial moderno.

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Mapa do caminho Peabiru com suas duas prováveis rotas, partindo de São Vicente e de Florianópolis.

 

PS- Outras plantas foram trocadas ao longo do caminho Peabiru. O trabalho Evidence of Maize exploitation around an ancient crossroad linking different aboriginal American Civilizations examinou a relação genética existente entre variedades de milho moderno e outras arqueológicas (incluindo amostras recolhidas na rota do Peabiru). As sequências de DNA derivadas do Peabiru possuíam características típicas de milho dos Andes, sugerindo uma troca de sementes de milho ao longo desse caminho histórico entre populações andinas e nativos Guaranis.

PS2- O roubo dos livros do Instituto de Botânica da USP durou exatamente dois meses. No dia 2 de abril de 2012 a polícia conseguiu recuperar todos os exemplares, quando a quadrilha tentava passar os livros para os compradores.

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Como a cenoura (e uma mentira sobre ela) ajudou os aliados a ganharem a segunda guerra

A Montanha Mágica é, sob todos os aspectos, uma obra-prima, que junto com outras grandes realizações do modernismo europeu – Em Busca do Tempo Perdido, O Homem sem Qualidades e Ulisses – ajudou a redefinir o que o romance poderia ser. Impressiona especialmente a maneira com que Thomas Mann traz o confronto de ideias para o centro da trama, de forma que no livro, enquanto se descreve a trajetória de Hans Castorp como interno de um sanatório suíço, se investigue ao mesmo tempo todo o significado da cultura ocidental.

O livro é inspirado em uma experiência vivida pelo próprio Mann, que visitou sua esposa em Davos, onde estava sendo tratada de um acesso de tuberculose, no verão de 1912. De forma similar ao ocorrido com o personagem central de seu romance, Mann tornou-se um paciente em potencial: depois de alguns dias, pegou um resfriado e consultou o especialista do sanatório, que descobriu uma mancha em seu pulmão e pediu-lhe para permanecer em tratamento. Ele se recusou. Como recordou mais tarde: “Se eu tivesse sido Hans Castorp, a descoberta poderia ter mudado todo o curso da minha vida. O médico me garantiu que eu deveria permanecer no sanatório por seis meses e obter a cura. Se eu tivesse seguido o seu conselho, quem sabe, eu poderia ainda estar lá! Em vez disso, escrevi A Montanha Mágica”.

O sanatório suíço de Thomas Mann podia tanto oferecer cura à tuberculose, quanto privar totalmente um jovem de uma vida real e ativa. Depois dos primeiros meses o interno perdia definitivamente a capacidade de ponderar sobre quaisquer outras ideias que não fossem relativas à sua doença. O sanatório na montanha retirava das pessoas a capacidade de viver na planície!

Hans Castorp vai até Davos visitar seu primo Joachim Ziemssen que está em tratamento. Mas logo as três semanas de visita transformam-se numa estadia de sete anos, que se alongam de 1907 até o início da Primeira Guerra Mundial. O sanatório é um microcosmo da Europa naquele momento e os personagens são representações de tendências e pensamentos que predominavam na Europa dos “anos loucos”. Em particular os personagens Settembrini e Naphta travam debates ferrenhos durante o livro. Settembrini é a encarnação dos valores humanistas, enquanto Naphta é o representante do catolicismo e do império Austro-Húngaro (um personagem complexo porque representa diferentes tipos de filosofias, todas totalitárias).

Li o livro enquanto vivia na casa de estudantes Vinzenzheim em Zurique e não pude deixar de perceber a enorme semelhança entre aquele ambiente e o sanatório de Mann. A casa de estudantes foi minha “Montanha Mágica”, que me impeliu a visitar Davos.

Foi um passeio muito melancólico. Davos me causou péssima impressão. Era uma cidade morta! Depois da Primeira Guerra Mundial, a descoberta de antibióticos capazes de combater a tuberculose acabou provocando o fechamento de diversas clínicas. Desde então a cidade tenta sobreviver e dar utilidade à sua rede hoteleira extremamente grande. Acho também que não consegui, durante minha breve visita à Davos, esquecer o final do livro. Com o início da primeira Guerra mundial, Castorp une-se às fileiras do exército alemão e o livro sugere sua morte no campo de batalha.

Na casa de estudantes fiquei muito amigo de um casal de iranianos, Ahmad e Thamine. Eles estudavam física nuclear e eu dizia que, sendo iranianos e tendo essa profissão, eram as pessoas mais perigosas de toda a Suíça. Nós brincávamos com isso, mas o governo Suíço não tinha o mesmo senso de humor: eles possuíam um visto especial que lhes dava permissão de circular apenas por Zurique. Caso quisessem ir a outra cidade qualquer da Suíça, tinham que pedir autorização das autoridades. Era uma situação bizarra! Frequentemente conversávamos sobre a guerra, que era uma experiência muito real para eles (eles tinham lembranças muito vívidas da guerra Irã-Iraque) e uma abstração para mim. Não eram as consequências óbvias da guerra o que mais os assustava. O pior para eles eram os desdobramentos “menores”, aqueles capazes de afetar o dia-a-dia por anos a fio. Cortes de luz e água, toques de recolher, falta de combustíveis e o pior: racionamento de comida. Para o cidadão comum, o acesso a alimentos durante uma guerra é um grande suplício, já que as rotas de comércio ficam sujeitas a bloqueios tão inesperados quanto frequentes. Para piorar, o racionamento costuma ser também muito persistente. O racionamento de comida durante a segunda guerra na Inglaterra, por exemplo, terminou somente em 1954, inacreditáveis nove anos depois do fim do conflito.

Thamine era uma excelente cozinheira e eu aprendi muito com ela. Não era difícil encontrar os ingredientes necessários para cozinhar os pratos típicos do Irã nas inúmeras lojas turcas que existem em Zurique mas frequentemente ela reclamava da dificuldade em encontrar cenouras diferentes. Cenouras (Daucus carota) fazem parte da dieta do povo iraniano por dois motivos distintos: o planalto iraniano, que hoje compreende o Afeganistão, Paquistão e Irã, é o local de domesticação da cenoura e lá ainda crescem livremente cenouras selvagens. Além disso as cenouras nunca estavam entre os alimentos racionados e por isso eles comiam cenouras quase todo dia durante a guerra.

Cenouras selvagens eram originalmente brancas ou levemente amarelas. Assim que começaram a ser cultivadas, por volta de 5.000 AC, a cor foi provavelmente um dos primeiros critérios de seleção, e logo surgiram cenouras roxas e amarelas. A grande diferença entre elas é que as roxas possuem grande quantidade de antocianinas, metabólitos secundários presentes em diversas plantas, enquanto as amarelas são mais ricas nos pigmentos carotenoides. Embora sejam extremamente bonitas, cenouras roxas tem um inconveniente: o pigmento se solta facilmente da raiz, e mancha utensílios de cozinha, mãos e roupas durante o preparo. Esse pode ter sido o motivo das cenouras roxas não alcançarem muita popularidade.

Ao anexar territórios da Alemanha, Itália e Espanha, Carlos Magno estabeleceu pela primeira vez um “Império Europeu”, incorporando em um único reinado a maior parte da Europa Ocidental e Central. No ano 795 ele incluiu as cenouras na lista de plantas recomendadas para cultivo em seu Império, popularizando-as na Europa. A partir daí, cenouras passaram a ser uma das principais fontes de amido para o homem do povo. Elas eram bem aceitas pela população, fáceis de cultivar e resistentes ao frio, o que as tornava disponível também durante os meses de inverno.

As cenouras cultivadas nessa época eram bastante diversas e assim permaneceram até o século XVIII, quando botânicos holandeses realizaram cruzamentos (provavelmente entre uma variedade amarela e uma roxa) e obtiveram a cenoura cor de laranja que conhecemos tão bem hoje. Essa variedade se popularizou inicialmente na Holanda, já que os botânicos responsáveis pelo seu desenvolvimento a ofereceram como homenagem à família real holandesa, a casa de Orange.

Enquanto eu só conhecia as cenouras holandesas, Thamine vinha diretamente do centro de domesticação. Ela comprava nas feiras e supermercados cenouras de diferentes variedades e achava as cenouras cor de laranja muito sem graça. As cenouras que ajudavam os iranianos a passar pelos longos períodos de conflito, também tiveram um papel fundamental durante a segunda guerra mundial.

Cenouras

Cenouras vão muito além da cor laranja. Acúmulo de carotenoides e de antocianinas trazem uma grande variedade de cores à raiz.

 

Em 1940 a marinha Alemã fechou as rotas de navios mercantes que rumavam para a Inglaterra. Como em momentos difíceis se tomam medidas desesperadas, estabeleceu-se um rigoroso controle sobre a quantidade de comida que cada cidadão poderia consumir. Com o abastecimento comprometido, Churchill percebeu que a guerra precisaria ser ganha, também, na cozinha. Em 1941, Lord Woolton, o ministro inglês da alimentação, lançou uma enorme campanha publicitária chamada “Dig for Victory”. A ideia era transformar qualquer espaço vazio do país em uma horta, diminuindo a dependência inglesa dos produtos vindos de fora. E a cenoura era peça chave nessa campanha, porque era bem aceita pelos ingleses, fácil de cultivar, além de não necessitar de muito espaço e principalmente, crescer bem inclusive no inverno. Mas um projeto como esse exige uma mudança radical nos hábitos alimentares de um povo inteiro. Lord Woolton lançou mão de todos os recursos possíveis e elegeu a cenoura seu principal garoto propaganda. Foi criado o personagem “Dr. Cenoura”, para levar as pessoas a comerem mais legumes. Na ausência de açúcar, as cenouras foram utilizadas como adoçante em sobremesas. Folhetos com receitas de pudim de cenoura, bolo de cenoura e flan de cenouras eram distribuídos e diariamente as rádios transmitiam programas com dicas e sugestões de novas receitas. Margerite Patten, que apresentava o programa “The Front Kitchen“, na BBC, foi alçada à condição de celebridade e publicou diversos livros de receitas bancados pelo Ministério da Alimentação (entre muitos outros, The Victory cookbook, Post-war kitchen e o com o melhor nome – We will eat again!). O Dr. Cenoura estava por todos os lados, e até mesmo Walt Disney ajudou a popularizar o personagem, desenhando cartazes com toda a família Cenoura: Carroty George, Pop Carrot and Clara Carrot. Há quem diga que o Pernalonga tenha sido inspirado no movimento inglês de popularização das cenouras.

Garotinhas e disney

Uma imagem emblemática: duas garotinhas tentam se convencer de que as cenouras no palito são o substituto adequado de um picolé. Ao lado, o cartaz feito por Walt Disney para promover a família Cenoura.

 

O “Dig for Victory” foi um estrondoso sucesso. Em poucos meses a Inglaterra converteu milhares de jardins em plantações e em 1943, mais de um milhão de toneladas de vegetais estavam sendo plantados em hortas domésticas ou comunitárias. Mas a cenoura teve ainda outra utilidade durante a guerra.

Os aviões alemães tinham o costume de atacar durante a noite, dificultando as defesas inimigas. Por isso, desde o início da guerra, o governo britânico promovia apagões nas maiores cidades durante a noite para dificultar que os aviões inimigos visualizassem seus alvos. Ao mesmo tempo, desenvolveram uma tecnologia de radares capazes de identificar os bombardeiros inimigos antes que eles alcançassem o Canal da Mancha. Mas era importante que essa nova tecnologia permanecesse em segredo. Conforme os ingleses iam abatendo mais e mais aviões por conta de seus novos radares, crescia o rumor sobre qual seria a arma secreta britânica e os generais inventaram uma mentira para justificar o sucesso: cenouras.

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Propagandas do Dig for Victory

 

Qualquer livro escolar de ciências contém a informação de que cenouras são boas para a saúde dos olhos. De fato, são ricas em vitamina A, fundamental para a visão. Mas durante a segunda guerra a cenoura foi transformada no vegetal que melhora a visão noturna, o que simplesmente não é verdade! Deficiência de vitamina A causa de fato dificuldades em enxergar em ambientes com pouca luz, mas uma abundância dessa vitamina não faz com que você enxergue melhor do que o normal. Espalhou-se a mentira de que o sucesso inglês em derrubar aviões alemães durante a noite era devido ao alto consumo de cenouras pelos soldados, como se comendo muita cenoura os soldados ingleses tivessem se transformado em “super soldados”! Uma jogada de marketing com várias vantagens: incentivava a produção e o consumo de cenouras (ajudando o programa Dig for Victory) e mantinha escondido o verdadeiro motivo do sucesso das defesas inglesas.

Não se sabe se os alemães acreditaram na mentira inventada pela máquina de propaganda inglesa (há quem diga que o consumo de cenoura entre as tropas alemães tenha de fato aumentado após a disseminação da história pelos ingleses) mas certamente o público britânico passou a acreditar que comer cenouras iria ajudá-lo a ver melhor durante os apagões em toda a cidade.

Quando vejo hoje um renascimento dos ideais de hortas comunitárias nas grandes cidades penso no porquê desse hábito, tão bem-sucedido na Inglaterra durante a guerra, ter se perdido. A experiência inglesa com o Dig for Victory mostrou que é perfeitamente possível converter espaços ociosos de terra em hortas produtivas, envolvendo toda a comunidade nesse processo.

Recentemente, talvez por conta do que se passa na Síria, voltei a pensar muito em Ahmad, Thamine, na guerra e em como ela altera nossas vidas. Inevitavelmente lembrei também da Montanha Mágica. Por tudo o que sugere e pela maneira que termina, é um dos livros mais tristes que eu já li! Apesar de ter entrado em contato com todas as grandes questões intelectuais do mundo ocidental, a última aparição de Hans Castorp se dá como um soldado anônimo, entre tantos milhares, em um campo de batalha qualquer da Primeira Guerra. Parece que por mais que tentemos, somos incapazes de escapar ao destino de Hans Castorp. Americanos armam os rebeldes, russos armam o exército Sírio, e o Estado Islâmico arma a si próprio roubando as armas tanto dos americanos quanto dos russos. E lentamente vamos caminhando em direção a um conflito de escala mundial. Se ao menos aprendêssemos alguma coisa com as guerras, poderíamos, após todo o sofrimento, aproveitar as hortas comunitárias. Mas parece que da guerra quase nada se salva; e mente-se sobre tudo: até sobre os benefícios da cenoura.

 

 

 

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