van Gogh, Digitalis e a verdade sobre os girassóis

Em 2007 estive pela primeira vez em Amsterdam. A cidade tem muitas opções e alguns programas obrigatórios. Eu sempre fui contra programas obrigatórios em cidades. Para meus amigos que vão à Paris eu digo claramente que não acho o Louvre um bom programa. É grande demais, cheio demais e cansativo demais. É o tipo de museu que deve ser conhecido aos poucos, privilégio de quem mora na cidade. Para o visitante passageiro, é um programa de Índio. Um dos programas obrigatórios de Amsterdam é o Museu van Gogh. Nesse caso, no entanto, eu tive vontade real de entrar.

Em determinado momento da minha vida dei aula de química na Escola Britânica do Rio de Janeiro, para alunos entre 16 e 17 anos, muito ricos. Desde então eu tenho a certeza de que a combinação da adolescência com o dinheiro é a coisa mais perigosa do mundo. Os moleques eram muito chatos, e obviamente não estavam nem um pouco interessados em química. SOFRI NA MÃO DAQUELA GENTE! Eu tinha um aluno que se chamava Natan, que uma vez veio falar comigo que não poderia assistir a minha aula porque tinha que ir ao médico fazer um exame muito importante. Tão importante que dependendo do resultado ele não precisaria mais fazer provas de matemática na escola. O que primeiramente parecia uma desculpa para não assistir a minha aula começou a me parecer tão elaborado que eu fiquei encucado. Natan ia tão mal em matemática que gerou a desconfiança que ele tivesse uma má formação cerebral chamada acalculia. Quem carrega essa má formação apresenta grande dificuldade de fazer contas matemáticas, mesmo as mais básicas.

Essa doença também se manifesta de outras maneiras como a dificuldade de diferenciar a esquerda da direita, e a dificuldade em aprender música (música e matemática parecem ter muito em comum em termos das áreas do cérebro necessárias para seu aprendizado e execução). Apesar de parecer absurda, a história do Natan fazia sentido, porque quando eu tentei ensinar isomeria espacial lembro que ele ficou muito enrolado com a história do desvio da luz polarizada para a direita ou para a esquerda. Essa condição pode ser comprovada com um exame onde se analisa a anatomia do cérebro, porque ela é caracterizada por uma deformidade em um dos giros cerebrais, e caso o exame comprovasse a acalculia a escola estava disposta a colocá-lo em um regime especial de aprendizado de matemática. O caso do Natan ainda apresentava um agravante, porque além da dificuldade com matemática, ele possuía também uma forma aguda de xantofobia, e inclusive seu médico tentava associar as causas das duas condições. A xantofobia é simplesmente o medo da cor amarela. No caso dele, manifestava-se em um verdadeiro pavor a girassóis. Enfim, o Natan tinha suas peculiaridades!

Fiquei realmente intrigado com aquela história. Na verdade, fiquei fascinado com a possibilidade de existência dessa doença, e fui perguntar a outros professores. A professora de artes disse que aquilo era mesmo verdade, e que ela tinha sido uma das primeiras a descobrir, muitos anos antes, quando falava de van Gogh em uma de suas aulas. O Natan teria ficado petrificado com os quadros de girassol.

E esse era um dos motivos que me faziam querer entrar no Museu van Gogh. Eu não consigo imaginar um lugar mais desagradável para o Natan do que esse Museu. Além, de diversos quadros com girassóis, van Gogh passou pela famosa “fase amarela” em que essa cor predominava nos seus quadros. Entrei com muita curiosidade de ver ao vivo o famoso quadro que havia assustado o Natan, mas infelizmente ele não estava exposto naquele dia, porque havia sido emprestado para um experimento que vou relatar mais a frente.

van Gogh passou os últimos meses da sua vida em uma vila francesa a 30 quilômetros de Paris (Auvers sur Oise). Ele teria se mudado para lá para se tratar com um médico de quem se tornaria amigo, o Dr. Gachet, e que figura em dois de seus quadros. São pinturas bem parecidas entre si, que mostram o Dr. Gachet sentado em frente a uma mesa, rosto melancólico, apoiando a cabeça em sua mão direita e segurando com a mão esquerda uma planta. O Dr. Gachet, ele mesmo um artista e grande colecionador de arte, aparentemente também sofria de depressão e era viciado em absinto. Em suas famosas cartas pra seu irmão Theo, van Gogh fala de sua primeira impressão do Dr. Gachet: “… não parece estar muito melhor que eu,…”

Exite muita controvérsia sobre a presença da planta na mão do Dr Gachet. Não necessariamente sobre que planta seria essa, já que o tamanho e o formato das folhas e flores deixam claro que é um tipo de Digitalis. A controvérsia diz respeito a se Van Gogh fez uso dessa planta e que efeitos isso teria tido sobre seu trabalho.

Paul_Gachet

A Digitalis é um gênero de planta que engloba cerca de 20 espécies conhecidas como dedaleiras, ou foxglove em inglês. Em um artigo no Canadian Medical Association Journal de 1996, o Dr. Wolf Seufert faz um retrato de quem teria sido o Dr. Gachet. Médico e amigo pessoal de diversos pintores como Emile Bernard e Cezzane, ele teria tratado muitos paciente psiquiátricos com Digitalis. Embora não existam provas de que a planta tenha sido prescrita para van Gogh, a natureza das suas perturbações, o histórico conhecido de seu médico e a presença da planta no quadro fazem acreditar que isso tenha de fato acontecido.

Durante o século 19, a demência com mudanças de humor e explosões de violência, além de diversos outros sintomas de distúrbios psiquiátricos era comumente tratada com Digitalis. Acontece que uma superdosagem leva à intoxicação, com efeitos surpreendentes, principalmente no que diz respeito à percepção de cores e acuidade visual. Um apanhado desses efeitos colaterais pode ser encontrado no artigo Vision of the famous- the artist eye, publicado em 1993 na revista Ophtalmic and Physiological Optics, e incluem “visão confusa”, “halos que aparecem em objetos escuros”, “percepção alterada de cores (especialmente amarelo, vermelho e verde)” entre outros.

Observando esses efeitos colaterais do uso de Digitalis, pode-se imaginar o efeito que essa planta causou no trabalho de van Gogh. O uso do amarelo é o mais óbvio de todos, e é muito revelador que a tal “fase amarela” seja exatamente durante os últimos meses de vida do pintor, quando estava sendo tratado pelo Dr. Gachet. Seus auto-retratos pintados em Setembro 1888 e início de 1889 são muito característicos dessa fase. A presença de halos é mais proeminente em Noite Estrelada, pintada em 1889. Quanto à percepção alterada de cores, o próprio retrato do Dr. Gachet pode ser resultado desse efeito. As flores de Digitalis pintadas por van Gogh são azuis, mas as Digitalis conhecidas possuem flores vermelhas, amarelas ou com diferentes gradações de roxo (Digitalis purpurea, D. grandiflora, D. lanata, D. ferruginea). Assim, a própria pintura de uma Digitalis azul poderia ser atribuída aos efeitos que a planta exercia sobre o pintor. Há quem defenda inclusive que a possibilidade de van Gogh estar intoxicado pela dedaleira explicaria um dos eventos mais dramáticos de sua vida, a auto-mutilação de sua orelha. Nevralgia do nervo trigêmeo (um dos pares de nervos cranianos) é um dos primeiros sintomas descritos para intoxicação por essa planta, de acordo o artigo Hitherto undescribed neurological manifestations of digitalis toxicity, publicado em 1948 no American Heart Journal. Uma nevralgia desse tipo em uma pessoa que já sofria de depressão e cujo comportamento oscilava entre a docilidade e a violência poderia levar à auto-mutilação.

 

Em A Origem da Obra de Arte, Heideger diz que a obra de arte deve “preparar o ser humano para o acontecer da verdade”. Nesse sentido, tem que se aproximar ao máximo, e até mais do que isso, tem que conter a verdade sobre aquilo que retrata. Ele inclusive usa um quadro de van Gogh para exemplificar essa relação da arte com a verdade: Um par de botas. Heideger diz que nesse quadro é possível se confrontar com a verdade sobre as botas, vislumbrar nas cores, formas e sombras o “embate diurno da terra com o camponês”.

Nesse sentido, pode-se dizer que não apenas no par de botas van Gogh tenha alcançado a verdade sobre o que pintava. Ele teria chegado também, sob o efeito da Digitalis, à verdade sobre os girassóis.

O quadro 12 girassóis em uma jarra, exemplo de sua fase amarela, e que tinha causado pavor em meu ex-aluno anos antes, não estava exposto naquela tarde em que eu visitava o Museu van Gogh. O quadro estava emprestado não para uma outra exposição de arte, mas sim para um grupo de pesquisadores que participavam do congresso Colour and Design, organizado pela Linnean Society de Londres. Aí eles fariam um curioso experimento sobre percepção de cores por abelhas.

Dois pesquisadores, Lars Chittka e Julian Walker pegaram abelhas que haviam nascido em laboratório e alimentadas com soluções nutritivas (e que portanto nunca haviam visto uma flor, seja de verdade, de plástico, pintura ou retrato) e as colocaram em um ambiente com 4 pinturas: duas que representavam flores (12 Girassóis de van Gogh e Vaso de Flores do Gauguin) e duas que não representavam flores (Cerâmica, de Caulfield e Natureza morta com caneca de cerveja, do Fernand Léger). O comportamento das abelhas em relação aos quadros foi filmado e quantificado em termos de aproximação do quadro e pouso no quadro. Os resultados são muito interessantes porque mostram que, embora nunca tenham visto uma flor na vida, as abelhas se aproximam mais e pousam mais nos quadros que representam flores. E dentre esses, o quadro de van Gogh atraiu mais abelhas que o de Gauguin (foi contabilizado também o número de pousos especificamente nas flores, e mais uma vez van Gogh ficou na frente de Gauguin). Aparentemente van Gogh, sob efeito da Digitalis alcançou de tal forma a verdade sobre os girassóis que foi capaz de convencer não apenas o Natan, mas também as abelhas, da veracidade de sua pintura.

12 girassois       Gauguin

 

leger                         caulfield

 

PS- O Natam de fato tem acalculia, mas ainda não foi possível estabelecer nenhuma relação entre essa condição e a xantofobia. Aparentemente são duas coisas completamente separadas.

 

PS2- Hoje a Digitalis não é mais utilizada na psiquiatria, mas um remédio muito utilizado para problemas cardíacos, a digoxina, é extraída dessa planta. Ela atua aumentando a força de contração cardíaca através da inibição uma Na+/K+ ATPase, que termina por aumentar a quantidade de cálcio na célula cardíaca. 

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5 thoughts on “van Gogh, Digitalis e a verdade sobre os girassóis

  1. Carlos Meliande says:

    Este post também está excelente. Consegue reunir a ideia de (h)alucinação à da reprodução da realidade. Mas um cara escreveu que as abelhas se interessaram muito pelo azul da assinatura do pintor e até pousaram nela. Talvez a xantofobia também acometa algumas abelhas.

  2. Jose H Oliveira says:

    Parabéns Luiz. Manda seus textos pra Piauí, vai que eles curtem tb! Os estilos sao parecidos.
    Mas e o Natan em, virou o que da vida?

  3. Eu me lembro bem de voce ter reclamado de dar aula nesse colègio. Em 2010 fui dar uma volta no Jardim Botanico, praticamente visito esse lugar todo os anos quando volto ao Rio, e a bióloga que dirigia o carrinho de passeio no parque reclamou igual a você, é como ela estivesse ouvido o mesmo papo e te copiasse, mas em relação ao Santo Inácio. Ela nao era do Rio, mas também nao tinha sotaque carregado de outro lugar.

    Eu nunca vou me esquecer de uma aula de ingles que eu tive no Sao José. Os alunos, entre eles, reclamavam de 2 professores serem nordestinos, o de inglês e a de geografia. Nao duvido que tenham de fato feito uma reclamação oficial junta a secretaria. A professora de geografia dava aula, o peso de sua matéria era mais alto. Num terceiro mês, que as aulas de inglês nao passavam de baderna, e que o prof. muito a contra gosto dava aula, quando dava para apenas 3 pessoas num canto escuro, os restante de 35 alunos se mobilizaram pra humilhar o cara de vez. Botaram todas as cadeiras no canto aonde esses estavam, meio que obstruindo/dificultando qualquer movimentação. Logo ficamos umas 2 semanas sem aula de inglês até um professor de português conhecido dos alunos tomar essas aulas.

  4. Pingback: Novembro/2018 – Girassóis | Karina Kuschnir

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