Assassinato de reputação: a máquina de propaganda contra uma planta

Descubro nesse exato momento que no dia 15 de fevereiro de 2019, portanto há três meses, faleceu aos 91 anos de idade a eminente arqueóloga alemã Erika Simon, e decido que em sua homenagem contarei a breve história que me levou a conhecê-la e seus desdobramentos.

De novembro de 2005 a novembro de 2006, enquanto cursava meu doutorado no Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ, consegui uma bolsa para estudantes de países subdesenvolvidos na Universidade de Zurique. Alí, enquanto estudava ciclo celular de plantas no laboratório do excelente Ueli Grossniklaus (sobre quem já falei aqui), lutava para levar uma vida digna com a bolsa que recebia do governo suíço. Esse é um dos mistérios que, creio, jamais conseguirei responder: porque destinar para estudantes de países subdesenvolvidos uma bolsa que não chegava sequer à metade da bolsa de doutoramento de estudantes suíços? Posso dizer sem medo de errar que durante esse período eu fui a pessoa mais pobre de toda a Suíça.

Morava em uma república, levava uma vida frugal e economizava o máximo que podia. Todo dia primeiro de cada mês fazia o trajeto entre o jardim botânico, onde ficava o laboratório, e a reitoria da Universidade, onde um funcionário distraído, após colher minha assinatura, me passava um envelope com os 1400 francos a que eu tinha direito. Em um desses dias de pagamento, enquanto atravessava o prédio da reitoria, fui surpreendido por um evento diferente. Um grupo bastante numeroso se amontoava para entrar em um auditório onde Erika Simon em instantes faria a palestra de lançamento de seu livro The Religion of the Etruscans.

Erika foi uma das mais notáveis estudiosas do etruscos, o povo que viveu onde hoje é a região italiana da Toscana durante a idade do bronze, há cerca de 5000 anos. No entanto, o evento que a tornou mais famosa nada tem a ver com suas pesquisas. Em 1991 Erika e seu marido Helmut Simon, durante suas férias nos alpes austríacos, acidentalmente encontraram Ötzi, a mais bem preservada múmia da Europa. Sua palestra foi sobre isso: múmias bem preservadas e o que se pode descobrir à partir delas! Mas ao contrário do que eu esperava, Erika não falou das famosas múmias egípcias. Essas passavam por todo tipo de preparação durante o processo de mumificação: as vísceras eram retiradas, o corpo era desidratado com sal, preenchido com serragem… O que assombrava Erika Simon era a mumificação natural, exatamente como tinha acontecido com Ötzi. Uma resposta dos corpos à condições muito específicas do solo, temperatura, umidade. No lugar de Ramsés ou Tutankamon, Erika falou do O homem de Grauballe e sua incrível cabeleira ruiva, da princesa Ukok e suas tatuagens místicas, das múmias da expedição Franklin com níveis assombrosos de mercúrio em seus corpos. Falou da Dama de Dai e se deteve na explicação de como seus restos nos revelaram que ela sofria de dores nas costas, pressão alta, sobrepeso, artérias obstruídas e problemas hepáticos. Como, observando a matéria ressecada por milênios, fomos capazes de descobrir que ela tinha diabetes e que morreu por volta dos 50 anos. Por último, mostrou a mais bela múmia do mundo, conhecida como “A Beleza de Loulan” descoberta na Ásia Central, na região de Urumqui. De todas as múmias mostradas por Erika, essa foi que mais impressão causou em mim.

 

 

Otzi, a múmia encontrada por acaso por Erika Simom e seu marido durante um passeio de férias nos alpes austríacos, e uma representação de como teria sido esse indivíduo quando vivo.

A região leste da Ásia Central foi um dos últimos lugares na terra a ser habitada por humanos. Ali se estende o deserto de Taklamakan, um dos maiores do mundo. Cercado por montanhas altíssimas e com temperaturas muito baixas, é um lugar extremamente inóspito. Isso explica porque existem pouquíssimos registros nessa região de ocupação humana durante o paleolítico ou o neolítico. Os humanos parecem só ter dominado aquele ambiente à partir da idade do bronze.

Durante o final do século XIX, a região de Urumqui, uma grande área do leste da Ásia Central foi incorporada à força na dinastia Qing (1644-1912) através da conquista pelos manchus. Originalmente a região era ocupada por etnias de origem turca e conhecida como Turquistão Oriental, mas a partir da invasão chinesa recebeu o nome de Xinjiang, que significa “Nova Fronteira”. Após recuperar brevemente sua independência com o colapso da dinastia Qing, em 1912, Xinjiang voltou ao domínio chinês quando a República Popular da China reivindicou seu direito pelo território. A região constitui 1/6 de toda a China e além de seu significado geo-estratégico óbvio, é abençoada com petróleo e outros recursos minerais e tem terras excelentes para a pecuária. É lá que a China testa suas armas nucleares. É curioso, porque apesar de fazer parte da China, seus habitantes se parecem muito pouco com chineses. O histórico de invasões somado às diferenças étnicas justificam um eterno clima de tensão política e desejos de independência de Xinjiang. Na tentativa de conter essas iniciativas o governo chinês tem conduzido um esforço pelo desenvolvimento do local.

Como é verdade tanto na China quanto em outras partes do mundo, onde quer que a construção de edifícios, estradas e outros projetos sejam conduzidos, é provável que haja descobertas arqueológicas. De fato, com o investimento chinês na região houve uma sucessão interminável de achados em Xinjiang que sugerem que a partir de 5000 atrás essa região passou a ser fundamental na ligação entre as diferentes regiões da Ásia. Centenas de sítios arqueológicos apareceram, dentre os quais dúzias de sepulturas contendo múmias extraordinariamente bem preservadas, juntamente com os tecidos em que estavam vestidos e os artefatos que as acompanhavam ao mundo posterior. Ali, a conjunção de solos secos, altamente salgados, associados ao frio glacial inibiu por séculos a putrefação da matéria orgânica.

A múmia mais famosa descoberta no deserto de Taklamakan é a de uma mulher com longos cabelos avermelhados, descoberta em 1979 perto da cidade de Loulan. A “Beleza de Loulan”, como ficou conhecida, tinha 1,5 metro de altura e foi enterrada usando um envoltório de pele de cabra, capa de lã, sapatos de couro e um chapéu com penas de ganso. A datação por carbono indica que seu corpo tem 3.800 anos. Graças ao extremo ressecamento e às propriedades conservantes do sal, o cadáver estava notavelmente intacto – seus cílios, o cabelo fino e até mesmo as linhas em sua pele eram visíveis. O mais incrível sobre o cadáver era que ela parecia ser caucasiana, com seu grande nariz fino e pontudo e bastante revelador, a mandíbula estreita e o cabelo avermelhado. Essa descoberta, seguida de várias outras múmias com características semelhantes, mudou a história da ocupação dessa região. Acreditava-se então que os caucasianos só haviam chegado por ali pelo menos mil anos mais tarde, quando as negociações entre a Europa e a Ásia começaram ao longo da Rota da Seda. Como a região foi incorporada à força aos domínios da China, e seus habitantes possuem características físicas distintas dos chineses, a descoberta de habitantes originais, representantes dos pioneiros com traços caucasianos despertou o orgulho étnico das populações do local e acendeu a perigosa chama da revolta contra a dominação forçada pelo governo chinês. Eu lembro de voltar à república onde morava e perguntar a um amigo chinês que morava comigo se ele conhecia as incríveis múmias de Urumqui. Ele as conhecia como as “múmias sem cabeça”, dado a grande quantidade de corpos decapitados encontrados no local. Estranhamente esse dado havia escapado a Erika Simon em sua palestra.

Beleza de Loulan

A “Beleza de Loulan”, a mais bonita múmia do mundo. Seus traços caucasianos despertaram o orgulho étnico dos descendentes originais dos habitantes de Xinjiang

Menos famosas que a Beleza de Loulan, outras múmias da região são igualmente intrigantes. As “bruxas” de Subeshi usam chapéus pretos muito altos e pontiagudos, assustadoramente parecidos com os chapéus de bruxa eternizados no imaginário popular. Existe um homem cujo peito foi costurado com um pedaço de pele de cavalo, sugerindo um estranho ritual funerário, e por último, aquela que na minha opinião é a mais interessante das múmias do deserto de Taklamatan: um xamã com sinos nas botas e a boca repleta de Cannabis, enterrado ao lado de um cesto com quase 800 gramas da planta.

Análises botânicas, fitoquímicas e investigações genéticas conduzidas em 2008 e descritas no artigo Phytochemical and genetic analyses of ancient Cannabis from Central Asia confirmaram que o material possuía atividade psicoativa e provavelmente era cultivado para fins medicinais ou religiosos. O solo altamente alcalino foi capaz de preservar nas folhas de Cannabis grande parte de suas características. Datadas de 3700 anos as folhas ainda mantinham coloração verde, além de apresentaram tricomas glandulares visíveis. É nos tricomas, os pêlos presentes nas folhas, que a planta fabrica os canabinóides que a tornaram famosa. As análises químicas do material mostraram a presença de cannabinol, um produto gerado naturalmente pela degradação do delta-9-tetra-hidrocanabinol (THC) e canabidiol. Análises genéticas mostraram que as enzimas que sintetizam tanto THC quanto o canabidiol estavam muito bem preservadas na amostra, e o mais impressionante: o material era todo de plantas femininas. A Cannabis é uma planta dióica, o que significa que existem plantas masculinas e plantas femininas, e sabemos hoje que são as glândulas localizadas nas flores das plantas femininas as responsáveis pela produção de grande parte dos canabinóides. Esses dados sustentam que a amostra mumificada encontrada em Urumqui é a primeira prova material do uso medicinal ou ritualístico de Cannabis que conhecemos até hoje. O uso da Cannabis, no entanto, é muito mais antigo do que isso.

Imagine uma primavera muitos milhares de anos atrás. Uma longa era do gelo havia acabado recentemente e um pequeno grupo nômade mantinha-se em movimento, aventurando-se longe de seu território ancestral, caminhavam pelo local onde hoje se situa a China. Encontrando uma clareira adequada perto da curva de um rio sinuoso, eles decidem que aquele é um bom lugar para um acampamento. No novo ambiente eles constroem abrigos simples de palha para dormir, armazenar seus poucos pertences e proteger suas famílias das intempéries. Neste momento, os seres humanos ainda não haviam desenvolvido técnicas para o cultivo de plantas. Como todos os outros povos durante esta era antiga, esse grupo dependia completamente da caça e da coleta.

As mulheres passavam grande parte do dia procurando e coletando frutas silvestres, raízes, grãos, vegetais, larvas, lenha e fibras para fazer cordas. Enquanto isso, homens rastreavam e perseguiam cervos, porcos, cabras, cavalos, certos pássaros e outros animais terrestres nas florestas e pastagens próximas. O rio adjacente ao seu novo assentamento supria água e prometia outros recursos naturais importantes, essenciais para a sobrevivência, como peixes.

Com o passar do tempo, eles perturbaram cada vez mais a clareira em torno de seu assentamento. Fezes, urina, carcaças de animais e outros dejetos criavam lentamente um solo rico em nitrogênio. Ao alterarem o ambiente naquela região abrindo uma clareira para seu acampamento, favoreciam involuntariamente várias plantas amantes do sol. Uma dessas plantas, que geralmente coloniza depósitos de lixo ou áreas de resíduos em ambientes abertos é a Cannabis, uma erva alta que é naturalmente adaptada a habitats perturbados e ensolarados. Perto do final do verão curto e quente, enquanto passeiam em volta do acampamento em busca de frutas e nozes, as mulheres não podem ignorar as plantas de Cannabis que cresciam inadvertidamente nas redondezas do assentamento.

Não se sabe se elas provaram ou não algumas sementes, mas o que não pode ter passado despercebido é a qualidade do talo da planta, fibroso, longo, resistente e maleável. Aquilo era evidentemente material adequado para a confecção de cordas, e isso era muito valioso. Elas cortam plantas inteiras e as levam de volta ao acampamento, onde as deixam secar. Para amaciar e soltar as fibras, batem com as plantas secas no chão de terra, e sem saber, espalham as sementes maduras pelo ar. Ali, naquele ambiente levemente alterado pelo homem, a Cannabis encontrou um nicho favorável, ensolarado, com solo bem drenado e enriquecido com nutrientes resultantes das atividades humanas.

As Cannabis selvagens que cresciam no entorno do acampamento eram selecionadas pelo seu comprimento, privilegiando-se plantas maiores, que produziam fibras mais longas, e assim as sementes levadas para o novo ambiente eram especiais: carregavam a informação genética que produzia plantas grandes. No final da próxima estação fria, novas chuvas de primavera deram às sementes de Cannabis depositadas a esmo no solo a umidade necessária para germinação e crescimento, e as plantas floresceram durante o verão, prosperando com a água disponível, luz solar e solo rico em nitrogênio dos restos orgânicos. Logo as mulheres começaram a colher as plantas de suas pilhas de lixo próximas, fazendo menos viagens para longe de casa em busca da Cannabis selvagem. Em poucos anos, as plantas de Cannabis eram colhidas apenas nas proximidades do assentamento. A humanidade está começando, lentamente, a entender os ciclos de plantio e produção de sementes e dando o mais importante passo em sua história. Interações como esta entre humanos e plantas foram a ponte entre a vida de caçadores-coletores e a agricultura. O ano é 10.000 antes de Cristo e a Cannabis já passa pelo seu primeiro ciclo de domesticação.

A Cannabis é provavelmente a primeira planta a ser domesticada por motivos não ligados a alimentação. Disputa essa posição com a cabaça (Lagenaria scicerária, sobre a qual já escrevi aqui), domesticada por ser um excelente recipiente para transporte de água e grãos, em uma época na qual a humanidade ainda não dominava a cerâmica. A Cannabis produzia de fato uma excelente fibra, o cânhamo. Cordas, tecidos, amarras, redes de pesca, tudo dependia da produção de cânhamo.

O cânhamo é a fibra mais importante da história da humanidade. Foi utilizado por milênios e segue sendo cultivado até hoje (em escala muito pequena, infelizmente).  Foi levada da Ásia para a Europa, onde deu impulso à indústria têxtil, e daí veio para o novo mundo. A Recopilación de las leyes de las Indias ou “Compilação das Leis das Índias” publicada em 1756 indica que em 1545, oficiais espanhóis nas Colônias do Novo Mundo receberam ordens para encorajar o cultivo de cânhamo. Em muitas partes do Novo Mundo foram impostas ordens exigindo que as fazendas produzissem sua cota de cânhamo a ser entregue ao vice-rei espanhol. Toda produção de papel nas colônias do Novo Mundo era dependente de cânhamo e a fibra era um ítem importante das exportações para a Europa. Era uma material tão importante que foi usada para fazer papel moeda, e existe inclusive uma nota de 10 dólares, ela mesma feita de cânhamo e produzida em 1914 que retrata a colheita de Cannabis. Embora o algodão e as fibras artificiais tenham assumido grande parte do mercado mundial de fibras ao longo do século XX, foi apenas muito recentemente que a produção de cânhamo caiu de forma significativa.
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Famosa nota de dez dólares, impressa em 1914, não somente feita de cânhamo, mas retratando no lado esquerdo a colheita de cânhamo.

A importância do cânhamo fica ainda mais clara quando se observa o caractere chinês que o descreve: uma casa abrigando duas plantas. Um caractere que se refere ao fato da Cannabis ser uma planta domesticada. A presença de duas plantas sob a proteção da casa indica sua característica dióica, representando uma planta masculina e outra feminina. Mas se o cânhamo é produzido e utilizado pela humanidade desde 10.000 anos aC, vindo a ser a mais importante fibra da história das civilizações, como explicar que o primeiro relato confiável de um uso medicinal date de 3800 anos atrás? Porquê a humanidade levou quase 6000 anos para descobrir os princípios psicoativos da Cannabis?  

A resposta para essa pergunta parece estar ligada exatamente ao fato da Cannabis ser uma planta dióica, com indivíduos masculinos e indivíduos femininos. Se você está interessado na produção de cânhamo, essa informação não é muito importante, mas se você está querendo produzir THC ela é fundamental, já que a maior parte da produção se dá nos órgãos sexuais femininos.

Essa diferença entre plantas masculinas e femininas é uma das dificuldades para o uso medicinal ou recreativo da planta. Como níveis maiores de THC só são produzidos por plantas femininas não fertilizadas, sua obtenção depende de um aprendizado complexo sobre a fisiologia da planta. Exatamente por isso, o fato da múmia de Urumqui ter sido enterrada somente com partes femininas das plantas é um forte indício de que aquele material era utilizado por suas propriedades psicoativas. As pessoas que enterraram aquele indivíduo sabiam selecionar as partes que interessavam das plantas, exatamente as partes ricas em THC.

Além disso, na planta os canabinóides são sintetizados e acumulados como ácidos canabinóides, uma forma muito pouco ativa dessas substâncias. Somente quando o material é seco, armazenado e aquecido, os ácidos descarboxilizam gradualmente em suas formas apropriadas, como canabidiol e THC. Dessa forma, a utilização para fins medicinais ou recreativos é difícil, dependendo não apenas da identificação das partes femininas das plantas, mas também de um tratamento posterior de secagem e aquecimento. Podemos imaginar que talvez a Cannabis fosse consumida sob a forma de chá, mas mesmo nesse caso os efeitos psicoativos seriam decepcionantes, já que tanto o THC quanto o canabidiol são compostos que não se dissolvem em água. Somente se fervidos em gordura eles podem ser extraídos. Tudo isso dificulta a existência de um uso psicoativo pelas populações primitivas. Além disso, o processo de domesticação original da Cannabis, focado no aumento da quantidade e qualidade das fibras, levou à produção de uma variedade da planta com uma concentração muito baixa de THC (Cannabis ruderalis). Assim o mais provável é que as primeiras plantas tenham sido domesticadas pensando exclusivamente em sua fibra e não fossem usadas para fins medicinais, ritualísticos ou recreativos.

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Cânhamo em chinês: duas plantas protegidas por uma casa. Uma representação ideográfica que demonstra a importância dessa planta, e explicita o fato dela ser uma das primeiras plantas domesticadas da história da humanidade.

Os primeiros indícios robustos de uma utilização medicinal da planta vêm de fato da Ásia Central. A múmia de Urumqui, o famoso xamã enterrado com Cannabis na boca e 800 gramas ao seu lado são a prova material mais contundente, mas não a única. O uso de maconha como medicamento pelos chineses antigos foi relatado na farmacopéia mais antiga do mundo, o Pen-ts’ao ching (que pode ser traduzido como “o herbalista”), que foi compilado no primeiro século desta era, mas que é baseado em tradições orais e escritos que vêm desde o tempo do imperador Shen Nung, que viveu por volta de 2.700 aC. Indicações para o uso da maconha incluem: dor reumática, constipação intestinal, distúrbios do sistema reprodutor feminino e outros. O livro recomenda principalmente o uso das sementes de Cannabis nos tratamentos médicos. No entanto, as sementes possuem quantidades muito pequenas de THC, sendo ricas em ácidos graxos e proteínas. Hoje, alguns desses ácidos graxos são considerados como tendo efeitos terapêuticos, como o ácido linoléico, cujo uso tópico é recomendado para eczema e psoríase, e seu uso oral para aterosclerose, osteoporose, artrite reumatoide e outras doenças inflamatórias. Outros efeitos também são reconhecidos, e até hoje sementes de maconha continuam a ser usadas como laxantes pelos médicos chineses.

Como atesta o Pen-ts’ao ching, o uso da Cannabis para fins medicinais começou na China por volta de 2700 aC, de forma que essa planta se confunde com a própria história da medicina chinesa. O imperador chinês Fu Hsi, que reinou entre 2852 e 2738 aC é considerado não apenas o fundador da escrita chinesa, como também o pai da medicina chinesa. Além de incentivar a produção dos primeiros livros didáticos de medicina, Fu Hsi teria criado o conceito de Yin e Yang, de acordo com o qual o corpo humano tinha que ser mantido em equilíbrio, sendo um eventual desbalanço a causa primordial de doenças. Galeno, um dos fundadores da medicina ocidental, desenvolveu um conceito bem parecido, embora quase de 3000 anos mais tarde. Mas ao contrário dos humores de Galeno (Terra, vento, fogo, água), o conceito de Yin Yang estava centrado no conceito de feminino (Yin) e masculino (Yang). A Cannabis desempenhava um papel fundamental na manutenção desse equilíbrio, especialmente porque possui diferenças claras entre indivíduos masculinos e femininos.

De acordo com o trabalho Hallucinogenic plants in Chinese herbals, publicado no  Journal of Psychodelic Drugs em 1978, o mesmo Pen-ts’ao ching contém a primeira referência clara ao uso de maconha como droga psicoativa, atestando que “o fruto da Cannabis, se tomado em excesso produzirá visões de demônios … a longo prazo, faz com que se comunique com os espíritos e ilumine o corpo de quem o tomar…” Apesar deste relato, são escassas as citações ao uso de Cannabis como alucinógeno em textos chineses antigos. Uma possível explicação para isso é o fato de que manuais de medicina são fontes excelentes de informação histórica, mas falham em diferenciar os usos medicinais de possíveis usos psicotrópicos da Cannabis. Afinal, em um momento que se possuía tão poucos conhecimentos de fisiologia, toda alteração na percepção humana podia ser admitida como tendo efeito terapêutico. Outra explicação vem do fato de que o uso psicoativo de Cannabis era associado ao xamanismo, a religião primordial dos habitante originais da Ásia Central. Não podemos esquecer que a própria múmia de Urumqui era um xamã, o que explica a grande quantidade de maconha que levava para o outro mundo. Mas o xamanismo passou a ser perseguido durante a dinastia Han, por volta do ano 200 aC, e essa prática religiosa tornou-se cada vez mais restrita no território chinês. No entanto, enquanto na China o xamanismo perdia força, ele encontrava um terreno livre e avançava para a Ásia Ocidental e para a Índia, levando consigo o uso da Cannabis.

Na Índia, o uso médico e religioso da Cannabis provavelmente começou em torno de 1000 anos aC. O livro Marijuana in medicine: past, present and future indica que a planta era utilizada em inúmeras funções, como analgésico, anticonvulsivante, hipnótico, tranquilizante, anestésico, anti-inflamatório, antibiótico, antiparasita, antiespasmódico, digestivo , estimulante do apetite, diurético, afrodisíaco, antitussígeno e expectorante.

Além do uso como medicamento, também as propriedades psicoativas da planta eram bastante apreciadas. Um uso tão amplo pode ser devido ao fato de que a Cannabis manteve uma associação direta com a religião, que atribuiu virtudes sagradas à planta. O  Atharva Veda menciona a Cannabis como uma das cinco plantas sagradas, referindo-se a ela como fonte de felicidade, doadora de alegria e portadora da liberdade. Diferentes tipos de preparo desenvolvidos na Índia aumentavam a disponibilidade dos compostos psicoativos da planta. O trabalho The religious and medicinal uses of Cannabis in China, India and Tibet, de 1981, detalha pelo menos três preparações: o tipo mais fraco, Bhang, consiste em folhas secas das quais as flores são cuidadosamente removidas. Um tipo mais forte, Ganja, é preparado com as flores da planta feminina. O mais forte de todos é o Charas, feito exclusivamente da resina que cobre flores femininas. As três preparações deveriam ser consumidas através da queima do material sobre pedras quentes, o que garante a presença dos canabinóides ativos.

Quando a maconha chegou ao Oriente Médio, vinda da índia, houve uma grande aceitação, especialmente porque o consumo de álcool era proibido pela religião muçulmana, tendo em vista a sua capacidade de produzir estados de euforia sem que levasse ao pecado, e durante as invasões árabes dos séculos IX a XII, introduziu-se a Cannabis no norte da África, atingindo desde o Egito até a Tunísia, Argélia e o Marrocos.

Na Europa, evidências históricas e arqueológicas sugerem a presença de Cannabis antes da era cristã. Parece que a planta foi trazida por invasores citianos (povo que habitava a região onde hoje é o Irã), que se deslocaram desde a Ásia Central e chegaram perto do Mediterrâneo. No ano de 450 a.C., Heródoto, em seu História das Guerras Médicas descreveu uma cerimônia fúnebre cita e declarou que numa tenda fechada, sobre pedras esquentadas colocavam-se sementes e folhas de Cannabis, que com a fumaça cheirosa exalada embriagava estes povos, possibilitando-lhes uma comunicação com os mortos, provocando-lhes grandes gritos. Essa descrição foi posteriormente confirmada por arqueólogos que encontraram sementes de Cannabis carbonizadas em túmulos citas na Sibéria e na Alemanha, conforme atesta o livro History of therapeutic Cannabis de 1997.

O Uso da Cannabis para fins terapêuticos, ritualísticos ou recreativos aumenta ao longo dos anos, conforme sua presença vai se expandindo. A percepção da planta começa a mudar, no entanto, no ano 325 d.C., quando o Imperador Romano Constantino, por meio do Concílio de Nicéia, promove oficialmente a união entre Estado e Igreja, e o cristianismo passa a ser a religião oficial do Império Romano. Esse evento levou ao colapso das antigas noções sobre a droga. Os sacerdotes cristãos, como representantes da religião oficial do Estado Romano, passaram a perseguir os praticantes de cultos vistos como rivais, tentando apagar qualquer traço de suas antigas crenças e práticas, incluindo aí sua vasta farmacopeia. As drogas passaram a ser estigmatizadas não só por sua associação a cultos mágicos e religiosos, mas também por seus usos terapêuticos para aliviar o sofrimento, já que a dor e a mortificação da carne eram concebidas pelos cristãos como formas de aproximação de Deus. Com a hegemonia da moral cristã opiáceos e outras plantas associadas à culturas distintas tornaram-se alvo sob o pretexto de serem “diabólicas”, e portanto, sinônimos de feitiçaria. No século III, o Imperador Teodósio intensificou ainda mais a perseguição à prática de qualquer religião salvo o cristianismo, contribuindo para a repressão do uso de outros enteógenos senão o vinho. Tal foi a perseguição ao conhecimento farmacológico que, no século X, o emprego de drogas para fins terapêuticos tornara-se sinônimo de heresia e a busca de cura tinha que se limitar ao uso de recursos de eficácia puramente simbólica. Os medicamentos ganharam nomes como “pó de múmia” e “pó de chifre de unicórnio”, além das indulgências eclesiásticas, óleos santos, velas e água benta. A idade média havia chegado de vez, com suas concepções espúrias e sua ciência torta. O uso de qualquer droga que não o álcool, sob a forma de vinho, podia ser punido com torturas e morte. Durante a Idade Média, devido à forte influência dos pensamentos da Igreja Católica, o uso de plantas como alucinógeno praticamente desaparece. No caso da Cannabis, no entanto, havia algo do qual a Europa não podia abrir mão: o cânhamo. Uma imensa quantidade de fibra de cânhamo seguia sendo utilizada. Durante a época das navegações o cânhamo era a principal fibra utilizada nas embarcações. Relatos dão conta de que as velas da expedição de Pedro Álvares Cabral e Cristóvão Colombo eram feitas da fibra do cânhamo, assim como os cordames usados em toda a embarcação e as roupas dos marinheiros. Estima-se que cada caravela trazia uma média de 80 toneladas de cânhamo em uma viagem transoceânica. Os colônias ultramarinas se mostraram excelentes lugares para o plantio de Cannabis, com a espécie sativa adaptando-se especialmente bem. Logo o cânhamo das colônias já alimentava a Europa ávida pela fibra. Na Renascença, o cânhamo era um dos principais produtos agrícolas consumidos pela Europa. Prova de sua grande influência é que, além dos primeiros livros serem impressos em papel de cânhamo, artistas pintavam em telas feitas com suas fibras. A própria palavra “canvas”, usada em várias línguas para designar “tela”, é uma corruptela holandesa do latim Cannabis: daí dizer-se oil on canvas (óleo sobre tela).

A história da perseguição ao uso de maconha no ocidente é interessante. Nada foi falado sobre a Cannabis na primeira Convenção Internacional do Ópio, de 1912. No entanto, na revisão dos tratados da convenção feita em 1925 a maconha foi tema de acalorados debates. Cogitou-se proibir o uso recreativo da Cannabis, permitindo apenas o plantio para produção de cânhamo, para fins médicos ou científicos. No entanto, a Índia e alguns outros países se opuseram a essa determinação, citando costumes sociais e religiosos e a prevalência do crescimento de plantas de Cannabis selvagem que tornam difícil aplicar essas regras. Assim, esta disposição nunca entrou no tratado final.

As Convenções do Ópio foram momentos interessantes onde a comunidade internacional teve que tomar a importante decisão sobre o que era ou não uma droga. De fato, é muito difícil encontrar argumentos sólidos e consistentes para classificar as substâncias dessa forma. Até hoje é difícil compreender porque algumas substâncias, como tabaco e álcool, são consideradas legais, à despeito de seus efeitos aditivos e impactos na saúde pública, enquanto outras como a maconha, segue considerada ilegal. Em seu livro de 1977 The Railway Journey: The Industrialization of Time and Space in the Nineteenth Century, o historiador alemão Wolfgang Schivelbusch sugere que o tabaco e o café se tornaram drogas socialmente aceitas porque seus efeitos fisiológicos atuam no sentido de combater a exaustão, sendo adequados à uma sociedade industrial, contribuindo para aumentar a produtividade dos trabalhadores. Sob esse ponto de vista é fácil entender porque a maconha, com seus efeitos calmantes e contemplativos, tem sido tão demonizada no ocidente.

Em 1937 o governo norte americano proíbe definitivamente o plantio da Cannabis, uma decisão que teve um componente inesperado. Em 1935, portanto somente 2 anos antes do banimento da Cannabis do território americano, a gigante do setor químico DuPont havia desenvolvido o nylon, a fibra sintética obtida a partir do petróleo. O cânhamo era um concorrente natural do nylon, e a DuPont enxergou no uso recreativo da planta a fraqueza capaz de retirar o cânhamo da competição. A DuPont pôs em cena uma enorme e milionária máquina de propaganda para associar o cânhamo ao uso psicoativo da planta. Mesmo advindo de variedades muito distintas, com a planta produtora de cânhamo apresentando níveis mínimos dos canabinóides, o lobby da DuPont foi eficaz. O banimento do plantio de Cannabis foi a derrocada da indústria americana de cânhamo e um excelente negócio para a indústria do nylon.

 

 

A propaganda anti cannabis em ação. Havia dezenas de cartazes, filmes e histórias em quadrinhos demonizando a planta. O efeitos dessa propaganda se fazem sentir até hoje.

Em 1964, no Instituto Weizmann de Ciências em Rehovot, Israel, o Dr. Raphael Mechoulam conseguiu o primeiro isolamento e elucidação do componente ativo da Cannabis, o THC. A descoberta, relatada no artigo The synthesis of 19-hydroxy-10-alpha-testosterone, iniciou uma revolução no pensamento sobre a Cannabis que continua até hoje. O isolamento permitiu a realização de testes clínicos que comprovaram que o THC de fato possuía propriedades terapêuticas. Como a planta era criminalizada a obtenção o THC à partir de extratos de Cannabis era proibida, mas a indústria farmacêutica tratou de sintetizar o composto em laboratório e vendê-lo com o nome de Marinol. Esse remédio até hoje é recomendado para o tratamento de náuseas e dores crônicas causadas por distúrbios do movimento, incluindo esclerose múltipla e distonia.
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Marinol, o THC sintetizado e vendido como remédio.

Nos anos 60, quando as drogas se tornaram símbolos de rebeldia juvenil, agitação social e dissensão política, o governo suspendeu a pesquisa científica para avaliar sua segurança e eficácia médicas. Em junho de 1971, o presidente Nixon declarou o início da “guerra contra as drogas”, aumentou drasticamente o tamanho e a presença de agências federais de controle de drogas, e adotou medidas legais como a condenação obrigatória de consumidores e a facilitação na obtenção dos mandados de busca. Um importante assessor de Nixon, John Ehrlichman, mais tarde admitiu: “Você quer saber do que se tratava realmente isso? A campanha de Nixon em 1968 e a Casa Branca de Nixon depois disso tiveram dois inimigos: a esquerda anti-guerra e os negros. Você entende o que estou dizendo. Sabíamos que não poderíamos tornar ilegal ser contra a guerra ou negros, mas fazendo com que o público fizesse associação dos hippies à maconha e dos negros à heroína, e depois criminalizando ambos fortemente, poderíamos perturbar essas comunidades. Poderíamos prender seus líderes, invadir suas casas, romper suas reuniões e difamá-los noite após noite no noticiário. Nós sabíamos que estávamos mentindo sobre as drogas? É claro que sim.”

Os efeitos da guerra às drogas foram dramáticos. Mesmo após a lei de 1937 que proibia o plantio e uso de Cannabis em solo americano, era permitido a médicos que avisassem a seus pacientes sobre os efeitos benéficos da maconha em determinadas condições. Esses médicos não podiam receitar o consumo da planta, mas podiam relatar aos seus pacientes a existência dessa alternativa. Em 1979, 8 anos após o início da ofensiva americana antidrogas, o médico que avisasse seus pacientes dos efeitos benéficos da planta poderia receber a mais alta punição do conselho de medicina: a perda do direito de exercer a profissão.

Há essa altura, os anos 60 e 70 haviam dado à maconha um status especial. A guerra às drogas e sua máquina de propaganda tentava demonizar a maconha, mas sua penetração na sociedade americana, seus efeitos benignos e sua associação com uma cultura de paz a conduziam na direção oposta: a da aceitação social. Entre 1973 e 1977, onze estados descriminalizaram o porte de maconha. Em janeiro de 1977, o presidente Jimmy Carter foi eleito com uma plataforma de campanha que incluía a descriminalização da maconha. Em outubro de 1977, o Comitê Judiciário do Senado votou pela descriminalização do porte de até 28 gramas de maconha para uso pessoal.

Em poucos anos, porém, a maré mudou. As propostas para descriminalizar a maconha foram abandonadas tão logo Ronald Reagan assumiu o poder, dando novo fôlego à guerra às drogas, em uma implacável reação cultural contra a permissividade dos anos 70. As novas leis levaram a uma disparada nas taxas de encarceramento. O número de pessoas atrás das grades por ofensas à lei de drogas aumentou de 50.000 em 1980 para mais de 400.000 em 1997.

Os efeitos das novas políticas antidrogas extrapolaram todos os limites e tiveram resultados imprevisíveis. Foram bloqueados programas de acesso a seringas e outras políticas de redução de danos exatamente no momento crucial da epidemia de HIV, facilitando a contaminação de milhares de pessoas. No final da década de 1980, uma histeria política sobre as drogas levou à aprovação de penas draconianas no Congresso. Se você fosse pego com um quilo de maconha em 1981, pagaria uma multa e teria que prestar serviços comunitário. Talvez tivesse problemas para conseguir um novo emprego. Se fosse pego com a mesma quantidade em 1988, no entanto, correria o risco de pegar nada menos do que prisão perpétua. Como efeito da propaganda antidrogas, em 1985 a proporção de americanos entrevistados que viam o abuso de drogas como o “problema número um” da nação era de apenas 2 a 6 por cento. A proporção ao longo dos anos 80 cresceu até que em 1989 chegou a impressionantes 64%. A máquina de propaganda atuando para demonizar as drogas gerou resultados rápidos, tornando o tema uma obsessão pública americana.

Hoje, figuras conservadoras vêm a público defender o fim da guerra às drogas e sua substituição por políticas de redução de danos, apontando para o retumbante fracasso das políticas proibicionistas. É o caso do Fernando Henrique Cardoso, Jimmy Carter e Bill Clinton. Infelizmente, essa percepção parece vir à tona somente após eles terem perdido o poder. Mas se a guerra às drogas fracassou em reduzir o número de usuários, ela obteve um grande e imprevisível êxito ao transformar a Cannabis, uma planta com níveis medianos de substâncias entorpecentes, em uma super droga.

A maior parte da maconha fumada nos Estados Unidos vinha do México. Uma das medidas tomadas durante a primeira etapa da guerra às drogas foi um acordo com o governo mexicano através do qual o departamento de agricultura Americano forneceria herbicidas paras serem usados nas plantações clandestinas no território mexicano. Diminuindo a oferta os americanos acreditavam que iriam sufocar o consumo. Grande erro. Na década de 70 os jovens americanos estavam envolvidos demais com a planta, e na diminuição dos carregamentos vindos do sul, decidiram plantar eles mesmos a Cannabis. No começo a maconha plantada nos Estados Unidos era bem inferior à que vinha do México. O problema é que a espécie mexicana, uma variedade da Cannabis sativa, era adaptada à uma ambiente tropical, mas crescia miseravelmente mal em latitudes altas, só vingando realmente em partes da Califórnia. No entanto, hippies que viajavam através do afeganistão pela famosa “trilha do Haxixe” estavam voltando para casa trazendo com eles sementes de Cannabis índica. Apesar de serem parentes bem próximas, as duas plantas são bastante diferentes. A Cannabis sativa que veio com os colonizadores espanhóis primordialmente para a produção de cânhamos vinha sendo domesticada lentamente, resgatando-se as vias moleculares de produção de canabinóides. Tendo sua origem na Cannabis sativa, são plantas altas, passando facilmente dos 3 metros de altura. Já a espécie índica produz plantas bem mais baixas, mas que suportavam o clima mais frio dos Estados Unidos. A chegada as sementes de índica permitiram o cultivo de maconha em todos os estados americanos mas embora ambas produzam boas quantidades de THC, metabólitos mais presentes na variedade índica conferiam à ela uma sensação mais desagradável para quem fuma.

A reação do governo foi criminalizar o cultivo doméstico, aumentando as penas de qualquer pessoa que se arriscasse a plantar maconha, mesmo em quantidades pequenas. Mas tentar mudar a cultura de um povo por decreto geralmente dá errado, e ao invés de coibir o cultivo, as medidas do governo americano somente contribuíram para levar os produtores para dentro de casa. O cultivo não diminuiu, simplesmente saiu do campo de visão das autoridades. Sótãos, porões ou salas vazias foram convertidas em casas de vegetação. O que o governo não podia prever é que o eventual cruzamento entre variedades de Cannabis sativa e índica fosse resultar em uma planta extremamente potente no que diz respeito ao conteúdo de canabinóides, e que combina características desejáveis das duas plantas, diminuindo suas propriedades desagradáveis: além de produzir híbridos resistentes, com altos índices de THC e baixos de outras toxinas, as plantas ficaram menores, muito mais adequadas ao espaço das câmaras de cultivo, e se mostraram muito bem adaptadas à iluminação artificial das casas de vegetação. No caso da maconha, o ser humano uniu duas linhagens evolutivamente distintas, que haviam se separado há milhares de anos, e que, não fosse o desejo humano por psicotrópicos, jamais se reuniriam novamente, com resultados fantásticos. E no entanto, a caça aos melhoristas colocava todo esse avanço em risco. Caso você plantasse maconha em seu sótão e tivesse acabado de obter uma nova variedade, todo seu esforço e glória estava constantemente em risco. Se você fosse descoberto, não apenas penaria na cadeia, como sua variedade seria queimada juntamente com todos os seus apetrechos de cultivo. Mas havia, neste mesmo momento, um lugar onde plantas, sementes, variedades e melhoristas estavam à salvo: a Holanda. As recentes leis que permitiam o cultivo e o consumo criaram um paraíso, um depósito protegido para sementes melhoradas, que eram enviadas clandestinamente dos EUA para a Europa. Os híbridos de sativa x índica produzidos nos Estados Unidos deram origem à variedades de genética aprimorada, e foram a base para os melhoramentos genéticos subsequentes feitos na Holanda. Contando com os inúmeros melhoramentos recente que aconteceram desde a década de 70 (e seguem acontecendo nesse exato momento), a Cannabis, que foi uma das primeiras plantas domesticadas pelo homem, deve ser também a planta que passou pelo maior número de rodadas de domesticação.

Quando soube da morte de Erika Simon lembrei automaticamente da incrível palestra que assisti, meio sem querer, naquele novembro de 2006. Pesquisando hoje sobre as múmias de Urumqui descubro que devido aos sentimentos separatistas despertados pelas múmias caucasianas nos habitantes de Xinjiang, o governo chinês ordenou que o exército conduzisse escavações na região, e que qualquer corpo mumificado encontrado deveria ser decapitado. É uma forma cruel e muito pouco respeitosa de retirar daquela população os símbolos capazes de atiçar seu orgulho étnico. Logo recordei da conversa com meu colega chinês, que se referiu aos achados arqueológicos de Urumqui como “múmias sem cabeça”. Mesmo decepadas, aquelas múmias seguem sendo capazes de nos dizer muita coisa, e talvez até devido ao decepamento possam nos dizer tantas outras mais: passam a ser testemunhas da ignorância e da brutalidade de uma máquina de propaganda que tenta esconder a verdade à qualquer custo. Uma máquina que não pode arcar com as consequências da verdade.

Uma máquina semelhante atua ainda hoje contra a Cannabis. Uma das plantas mais importantes da história da civilização humana, por sua fibra e suas substâncias curativas e psicotrópicas, hoje relegada às páginas policiais e à doutrina jurídica. Não custa lembrar que domesticamos a Cannabis pela primeira vez há 12000 anos atrás, mas faz menos de um século que voltamos contra ela nossa máquina vil de propaganda, assassinando a reputação de uma planta tão interessante. Nunca é tarde para rever nossas posições e tratar com justiça quem sempre esteve ao nosso lado.

 

PS- Só existe uma população conhecida que não faz uso de plantas psicoativas para obter estados alterados de consciência: os esquimós.  Uma exceção que só prova a regra, já que os esquimós não usam plantas como drogas simplesmente porque no ambiente em que vivem não cresce qualquer planta.

PS1- Cânhamo é um anagrama da palavra maconha

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2 thoughts on “Assassinato de reputação: a máquina de propaganda contra uma planta

  1. Lindo de mais, emocionante.
    Em 2005 no curso de norueguês, eu conheci um cara de uma país entre a China e antiga União soviética, ele era tipo Mongol, mas era uma outra etnia, talvez mais turcomenistão que chines, em fim, pra qualquer um na escola ele passava apenas por chines, e por órgãos internacionais também já que seu país fora aglutinado ao estado chines. Um amor de pessoa. Essa minha turma (estou me extendendo…) era bem parecida com a minha turma cerca 13 anos antes no Impacto, meu camarada de sala era coreano e aqui na Noruega era esse maluco desse estado invadido, entre a China e o Butão. Eu ficava eu entre os asiáticos como também fazia no Impacto e eles sem falar entre si! Um dia lá a Lilly, a chinesa de Beijing, ela cantou um hino lá, eu a achando que era tipo internacional comunista em chines (acho até hj) e o maluco começou a passar mal do meu lado. Esse era o hino que cantaram enquanto invadiam a casa das pessoas, prendiam os pais de familia, levavam as pessoas pra China. O cara tinha muita historia… A última vez que o vi foi no dickens parecia muito feliz com sua mulher… acho que em 2007.

    • Interessante Flávia. A gente olha hoje e não sabe que a China atual é um retalho de outros países. Eu tive alguns amigos chineses na Bélgica, e eles sabiam pouquíssimo sobre os protestos na praça da paz celestial. Incrível!!!! Nada disso é divulgado lá. Eles diziam que na universidade ouve-se falar um pouco sobre os acontecimentos, tudo à boca pequena, entre os alunos. Mas qualquer ocidental sabe infinitamente mais sobre esses acontecimentos que um chinês. Um abraço

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